quinta-feira, 3 de julho de 2014

O começo de um ciclo de lutas e a repressão

Ensaio [1]
03 de julho de 2014
Por Thabata Gomes, estudante de pós-graduação e Silvia Adoue, militante socialista, professora da Escola Nacional Florestan Fernandes [ENFF] e do Departamento de Letras Modernas da Universidade Estadual Paulista [UNESP] Campus de Araraquara-SP.

Em 1968, quatro anos depois do golpe civil-militar, aconteceu a primeira greve de impacto nacional na Cobrasma, fábrica importante de Osasco, com ampla participação da população da cidade no fundo de greve. Foi o início de uma série de articulações das classes trabalhadoras nos espaços de produção e de reprodução. Uma década depois, clubes de mães da periferia (zona sul) da cidade de São Paulo se organizam em movimento contra a carestia e juntam 200 mil assinaturas. Não apenas a repressão havia desarticulado o movimento dos trabalhadores, mas a grande migração rompeu os laços de confiança e demorou a construção de novos vínculos. Nas periferias das cidades, a nova configuração das classes trabalhadoras, lentamente, nos mutirões e nas lutas por infraestrutura básica vão firmando novas organizações, por fora dos sindicatos reconhecidos e das lideranças sindicais e políticas tradicionais, cujo vínculo orgânico com a classe tinha se desmoronado no meio a esse vendaval. E foi no 1º de abril de 1980 que irrompeu a greve histórica dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e que durou 41 dias. Uma nova liderança, Luis Inácio Lula da Silva, é presa durante esse movimento, sendo destituído da presidência do Sindicato. O inquérito criminal assinalava como vítima: “O Estado e suas instituições”.
O Estado enxergava essas novas organizações não reconhecidas como altamente perigosas e desestabilizadoras. Não as considerava interlocutoras válidas. Colocou-se para esses movimentos o desafio de ingressar na luta institucional para a conquista das suas reivindicações. Das formas de organização de base, passou-se à construção de candidaturas, para conseguir esse reconhecimento.  Primeiro, no Movimento Democrático Brasileiro (MDB), e depois, quando houve condições legais para formar um partido que só atendesse as reivindicações populares, organizaram o Partido dos Trabalhadores (PT). Mas demorou muito tempo para que o calendário institucional e as demandas do Estado sobrepujassem a prática longamente construída pelas organizações de base.
Quase um quarto de século depois, nos encontramos com uma situação que guarda com aquele momento algumas semelhanças. A configuração das classes trabalhadoras mudou completamente, como resultado da reconfiguração do capital no Brasil. As organizações populares que surgiram naquele ciclo de lutas não mais representam as classes trabalhadoras atuais. A taxa de sindicalização vem decrescendo desde 2006. O que não tem impacto na arrecadação dos sindicatos e centrais, uma vez que o imposto sindical é compulsório. O resultado desses dois fatos é uma consolidação do aparato sindical e um descolamento das bases.
As novas lutas que aparecem em 2013 e 2014 rompem com a dinâmica já estabelecida entre as organizações faz décadas reconhecidas e que de certa forma se organizam em torno de pautas negociadas previamente com o Estado. Essa nova dinâmica desses movimentos aciona a forma repressiva do Estado que lida com o movimentos com mais prisões e repressão. E os novos lutadores são apresentados como “inimigos das instituições [agora] democráticas”. É o caso emblemático de Fábio Hideki Harano, preso por “associação criminosa”. O que é sugestivo, e diferencia esta prisão daquelas dos anos de 1970 e começo de 1980, é que Harano não é uma liderança como Lula ou os sindicalistas e dirigentes de movimentos sociais e, por conseguinte, não pode entrar na dinâmica de interlocução que o Estado vem utilizando.
Essas novas lutas não têm uma base consolidada e se articulam de maneira muito mais horizontal. A participação das pessoas é, muitas vezes, por convites em redes sociais, ou por associação com diversas organizações que participam da construção dos atos, sem assumir individualmente sua responsabilidade e massificação, e sem uma relação de dependência entre as bases e as organizações. Quem seriam, então, os líderes de tais processos? A polícia impediu a manifestação contra a prisão de lutadores com o argumento de não ter nenhuma “liderança” se apresentando e se responsabilizando pelo movimento. Isso, que parece apenas uma desculpa para evitar a mobilização, revela os riscos que o Estado percebe quando não tem interlocutores capazes de controlar as bases. Identificadas as lideranças, elas podem ser cooptadas ou bem reprimidas. Mas isso não acontece com coletivos que se reúnem para uma reivindicação comum, sem qualquer hierarquia. Se a falta de lideranças traz dificuldades operativas para o próprio movimento, também resulta em um obstáculo para desviar ou arrefecer a luta com repressão.
Se bem parte das organizações formadas no ciclo anterior mantém lutas e um calendário de mobilização rotineiro, estas novas lutas põem em xeque os calendários e a rotina dos aparatos. Os velhos laços de confiança não mais existem. As recentes mobilizações nos recordam uma época em que o trabalho de base e as lutas contra a “ordem” estavam na ordem do dia.


[1] Publicado também em http://www.brasildefato.com.br/node/29036

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