terça-feira, 17 de junho de 2014

Quando foi que vestimos uma única camisa?

Ensaio
16 de junho de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

Nelson Rodrigues, valendo-se do depoimento do escritor mineiro Otto Lara Rezende, disse que "o brasileiro só é solidário no câncer". Se isto é ou não mais do que uma mera frase de efeito, os antropólogos da terra dizem que falta à nossa gente um sentimento de unidade e de pertencimento, que faz das manifestações culturais o único cimento da nossa integridade nacional. Antes era a religião, depois o Exército na Primeira República. Agora, o futebol e o carnaval. É de um psicanalista pernambucano a observação arguta de que somos um povo pronto e disposto aos maiores sacrifícios e emoções, mas a serviço de causas irrelevantes, sem grandeza ou altivez. Ah, se fosse possível canalizar essa energia positiva do povo brasileiro para uma grande causa ou uma grande utopia social! Infelizmente, nosso entusiasmo e a nossa paixão são gastos com movimentos, incitações e causas de fôlego curto e de pouco interesse social.
O teólogo da igreja reformada, Rubem Alves, escreveu uma carta pública a Roberto Marinho convidando-o a colocar o imenso poder de influência da Rede Globo, a serviço de causas humanitárias, sociais e pedagógicas. Infelizmente, o falecido magnata das comunicações não deu ouvidos ao educador, psicanalista e teólogo. Talvez porque sua rede de comunicações seja, antes de tudo, uma empresa (capitalista) de comunicações, e não um serviço de utilidade pública, apesar de ser uma concessão pública.
Quando se assiste esta incitação pública a vestir a camisa da seleção de jogadores de futebol, que vai participar de uma disputa internacional de jogos é de se perguntar: quando foi que vestimos uma única camisa? Nos hospitais públicos? Nas escolas públicas? No interior de nossos condomínios e bairros? Nos pólos gastronômicos ou áreas de lazer dos Shoppings Centers? Em canto nenhum desse país, os brasileiros, em seu dia a dia, têm dado manifestações de solidariedade, de apoio mútuo, de empatia para com os que sofrem. Existe em nosso país uma "dialética da malandragem" ou "a malandragem pragmática". Nem mesmo o "indivíduo disciplinar", de Michel Foucault. Aqui, seria o estado de natureza hobbesiano, piorado com a Lei de Gerson, de Ayrton Senna ou Pelé. Este sim símbolo da cidadania esportiva de cabeça para baixo, em função dos péssimos exemplos e das declarações infelizes que costuma dar.
Quando foi que surgiu um exemplo positivo, abnegado, generoso e altruístico de herói? Betinho, que terminou os seus dias no Conselho da Comunidade Solidária de FHC fazendo a propaganda da filantropia privada dos bancos, empreiteiras e empresas internacionais?
A razão está com aquele argentino que disse que o nacionalismo (de chuteiras, como o nosso) é uma modalidade de socialismo de tolos. Destinado a viabilizar os negócios milionários da FIFA, das empresas multinacionais, da mídia verde-amarela e dos políticos desavisados que querem tirar carona no desempenho da Seleção.
Pobre país, pobre cidadania. Será que não deveria haver no Brasil outras prioridades a ocupar o lugar dessa histeria esportiva, convenientemente orquestrada pelos grandes grupos econômicos interessados no festim?

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