quinta-feira, 26 de junho de 2014

O que não aceito nos Direitos Urbanos sobre o Cais Estelita

Ensaio
25 de junho de 2014
Por Tato Silva, ativista social, bacharel em filosofia e bacharelando em direito.

Como tantos recifenses, eu sou contra o que o Consórcio Novo Recife está querendo fazer com o espaço do Cais Estelita. Como tantos recifenses, eu vejo com bons olhos o ativismo por uma cidade melhor e por uma ideia melhor de espaço urbano numa cidade que já se encontra caótica e desigual. Como tantos recifenses, eu concordo com a ideia de que nós somos os responsáveis por defender os espaços e as grandes linhas de argumentação dessa cidade. Como tantos recifenses, eu sou um fervoroso crítico da imprensa, da grande imprensa, que só noticia aquilo que quer e segue os interesses que lhe são mais diretos. Quem fará senão nós? Quem defenderá senão nós, que somos habitantes da cidade e que teremos prejuízos ambientais, jurídicos, sociais e culturais com uma dúzia de espigões lá plantados para servir a apenas alguns?
Há um comercial do Novo Recife na mídia falando de um projeto excelente, de primeiro mundo, de reconhecido destaque para “todos” (sic). É óbvio que não há um pingo de verdade nessa afirmação e que agir em todas as frentes é primordial: seja com a cultura, seja com a sociedade, seja com a sensação de que contribuímos para que nossa cidade seja nossa cidade e não só de alguns, dos mais ricos. Nisso o movimento Ocupe Estelita acertou em cheio.
Mas tenho algumas ressalvas a fazer sobre alguns pontos específicos. Em primeiro lugar, eu quero rebater este trecho postado no blog de autoria do professor Érico Andrade, que foi meu professor no curso de filosofia, com a devida vênia, diga-se de passagem: “As armas dos Direitos Urbanos são, sabemos: as leis, a consistência dos argumentos sólidos e técnicos e, principalmente, a participação de milhares de pessoas...”. Discordo respeitosa, mas veementemente, que sejam os Direitos Urbanos os representantes totais dessa luta. A luta é do movimento Ocupe Estelita que não é composto apenas de pessoas ligadas ao grupo. A luta é de todo recifense, não apenas os de classe média, como o professor colocou muito bem em outro trecho do artigo, e não apenas de um grupo, por mais que esse grupo participe ativamente das ações.
Nós vivemos num mundo no qual a captação de vontades é mais plural e acéfala do que tudo. Colocar o DU como a cabeça desse movimento é simplesmente olvidar que não é bem a verdade dos fatos que está sendo dita. Eu conheço inúmeras pessoas que estão ativas no movimento. Contudo, essas pessoas não são parte do grupo DU. Eu conheço pessoas que estão na mesma situação que eu. Que fazem a sua parte diante dos afazeres inadiáveis da vida para se informar e tentar com um grão de areia colocar a sua força contra o Consórcio Novo Recife, mas que não são do grupo DU.
A captação, ou cooptação, desse movimento e desse foco de ativismo preocupa porque me parece ter outros intuitos além dos de fazer com que o cais não seja transformado num espaço privado. A consistência de argumentos sólidos, milhares de pessoas envolvidas, entre outras coisas não são armas do DU, mas do povo recifense. O DU não é o Ocupe Estelita, por mais que o tenha idealizado e o posto em prática. O DU não ocupa o protagonismo nessa luta sozinho. Há vozes. Há braços. Há mais pessoas que, como eu mesmo, estão preocupadas em falar e em impedir esse desmando na cidade. O DU precisa ser parte do processo. Sim, é importante. Mas não transformar o processo inteiro em sua imagem e semelhança. Pois é perigoso para um ativista social e em várias causas ter que ouvir que um movimento conseguiu enquanto movimento (que talvez já seja até ou esteja em iminência de se transformar numa pessoa jurídica, organização não governamental ou porta-voz de muitos) tudo isso que já conseguiu sem essas vozes e braços feitos anônimos.
Feita a ressalva ou o conjunto de ressalvas simbolizadas aqui pela participação de várias vozes no processo e, também, a noção de que as vitórias e conquistas são também do DU, mas não do DU isoladamente, eu posso reiterar o meu apoio à causa e esperar, como tantos recifenses, por um final desejável para as celeumas existentes e para os desmandos dos grandes consórcios que visam tornar a cidade um quintal para os seus cidadãos. Recife é muito mais que isso. Bem mais que isso.

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