quinta-feira, 26 de junho de 2014

Não é apenas por um cais

Ensaio[1]
25 de junho de 2014
Por Marco Mondaini, Historiador, Professor Associado da UFPE, Pesquisador Produtividade do CNPq, autor de "Democracia e direitos humanos sob fogo cruzado".

Alvorada do dia 17 de junho de 2014. Uma operação de guerra levada a cabo pela Polícia Militar do estado de Pernambuco é desencadeada a fim de expulsar violentamente cerca de 50 manifestantes que ocupavam pacificamente há cerca de um mês o terreno onde o Consórcio Novo Recife pretende tirar do papel um megaprojeto arquitetônico que desfigurará (privatizando) o Cais José Estelita, localizado entre a Bacia do Pina e o Bairro de São José - espaço estratégico no qual se inicia o centro histórico da cidade do Recife.
Para os que se encontram distantes das vicissitudes políticas e econômicas do Leão do Norte, há sete anos e meio, o Poder Executivo de Pernambuco é dirigido pelo Governador Eduardo Campos, tendo como seu vice João Lyra Neto, que, com a desincompatibilização do primeiro para candidatar-se à Presidência da República, sucedeu-o a frente do Governo do estado.
É bom que se diga que ambos são lideranças do Partido Socialista Brasileiro (PSB), da mesma forma que o atual Prefeito da Cidade do Recife, Geraldo Júlio. É bom que se diga, também, que figuram na lista de doadores de campanha do PSB de Eduardo Campos e Geraldo Júlio, no ano de 2012, uma quantidade impressionante de construtoras, entre as quais encontram-se as duas principais empresas que formam o Consórcio Novo Recife: Queiróz Galvão e Moura Dubeux.
Como não acredito em coincidências, ainda mais quando o assunto é a relação existente entre política e economia, claro está que a ação truculenta da Polícia Militar pernambucana contra os manifestantes expressa os compromissos pouco republicanos existentes entre o bloco de poder encabeçado pelo PSB do presidenciável Eduardo Campos, que domina Pernambuco há quase oito anos, e a rede de interesses mercadológicos formada pelo capital imobiliário.
No plano ideológico, a imprensa local, com destaque para o grupo midiático controlado pelo magnata João Carlos Paes Mendonça, ora ignora ora criminaliza o movimento que se formou, em 2012, no seio da sociedade civil recifense, contrário à transformação do Cais José Estelita numa área a menos no espaço público pernambucano, tal qual a Reserva do Paiva, paradisíaca praia do nosso litoral, praticamente privatizada.
Dentro desse contexto que articula interesses de grupos políticos, econômicos e midiáticos, difunde-se o discurso de que a violência da Polícia Militar do estado de Pernambuco contra os manifestantes foi empregada com base legal, como deve-o ser num Estado de Direito Democrático, já que amparada por um mandado de reintegração de posse expedido pelo Poder Judiciário local.
Com isso, fecha-se o círculo que nos remete às reflexões do filósofo italiano Giorgio Agamben. Vivemos hoje sob um Estado de Exceção, no qual, em nome de uma suposta defesa do Estado de Direito Democrático, violenta-se a própria democracia, compreendida, aqui, como socialização dos poderes, e a ideia de liberdade como construção coletiva. 
Não, prezados/as leitores/as, a luta em questão não é apenas por um cais, ainda que seja o Cais José Estelita. O que se encontra em disputa é algo muito maior. O que está em jogo é a democracia em Recife e em Pernambuco, e, em função do projeto de poder do PSB de Eduardo Campos, a democracia no Brasil.



[1] O autor é colaborador regular do Blog Sintese. O presente texto foi enviado pelo autor a vários veículos, o Blog Sintese entre eles. Já foi publicado em outros locais, como, por exemplo, http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Cidades/Estelita-nao-e-apenas-por-um-cais/38/31204

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