quarta-feira, 4 de junho de 2014

Dia do Trabalho... Ou do trabalhador?

Ensaio
03 de junho de 2014
Por Leal de Campos, militante socialista e ex-preso político.

Parece até que se perdeu a capacidade de se manter viva a memória das lutas dos trabalhadores brasileiros como parte da história da classe trabalhadora de todo o mundo. Enquanto em alguns países ainda se assiste às manifestações combativas nesse dia, refletindo as pugnas de todos os seguimentos explorados da sociedade capitalista, aqui no Brasil as esquerdas em geral se tornaram reféns das centrais sindicais pelegas e dos partidos fisiológicos.
Nada de mensagens ou apelos revolucionários! Nada de estímulos e incentivos à organização autônoma e independente das massas! Nada de questionamentos à economia de mercados! É uma festa, tudo está às mil maravilhas, nada a reclamar... Esta tem sido a capciosa mensagem de manipulação política usada por parte das elites conservadoras e do sindicalismo burocrático.
Assim sendo, o memorável Dia do Trabalhador passou a ser nomeado de “dia do trabalho” como um feriado no qual devem ser esquecidas as lutas históricas de todos os usurpados e excluídos, prevalecendo o sentido ameno de um sarau sem rosto, sem identidade. Persiste, em contrário, a caricatura de manifestos políticos do passado, num momento em que conquistas alcançadas estão sendo vilipendiadas e os movimentos sociais, na sua maioria, cooptados pelos governos de plantão. Um infortúnio que se soma a crucial e profunda crise das esquerdas “aprisionadas” aos equívocos e distorções de uma prática política já ultrapassada.
Mas, onde estão os militantes políticos que são conscientes da necessidade de transformação da sociedade capitalista? Quais os óbices desse enigma?
É, sim, um fato lamentável se constatar que não se tem quase nenhuma saída para se estabelecer um contraponto às manobras dos pelegos sindicais e dos agentes do Capital, os quais transformaram a data num arremedo de encontro político-festivo de trabalhadores e trabalhadoras, alienados. Sem perspectivas de ascensão. Sem nenhuma busca por outros e novos caminhos. Bem acomodados quanto à cômoda situação de continuar sobrevivendo sem indagações, a despeito dos enfrentamentos explosivos das populações pobres das periferias de todas as cidades, humilhadas constante e diariamente, incluindo a recusa sistemática de lhes assegurar os mínimos direitos à saúde, à educação, à moradia e ao transporte público, gratuitos e de qualidade. Isto, sem se falar do subemprego crônico e lesivo em todas essas áreas populacionais, nas quais se vive de “bicos” para se conseguir alguma renda, sem nunca sair do enrosco.
Ou bastam as poucas “migalhas” que lhes são concedidas pelos “programas sociais” através dos quais se transfere parcos recursos financeiros, bem inferiores aos ganhos estratosféricos dos grupos econômicos em qualquer período?
Sabe-se muito bem que nos tempos atuais até a burguesia, representada pela centro-direita, aceita que se gaste algum dinheiro para manter esses aglomerados de pessoas simples atrelados e dependentes do “poder público” institucional, através de programas tipo “Bolsa Família” - por exemplo. “Pão e circo” é a principal apelação empregada até no tempo presente como um método eficiente para se distrair as mentes, desprovidas de consciência política e, portanto, à mercê dos messias de ontem e de hoje, dos “pais dos pobres” etc.          
Com certeza é um grande desafio e uma incomensurável tarefa para todas as esquerdas autênticas, que procuram restabelecer o compromisso histórico de ajudar e colaborar para que os povos possam superar as suas próprias limitações e daí erguerem uma nova sociedade, sem propriedade privada, sem divisão de classes. E, é claro, sem a necessidade de partido único. Sem se depender de um pensar unitário forçado, pois é através de variadas elucubrações que se constrói a unidade possível com base no consenso, mútuo respeito e devida tolerância, entre as várias correntes comprometidas com um socialismo democrático de conteúdo renovador. Antes que o Capitalismo movido pela ganância insana de obter lucros a todo custo leve todos nós à barbárie, ao caos e à destruição completa do planeta em que vivemos precariamente. Uma possibilidade anunciada que não pode ser desprezada desde já.
Mais acima de tudo é preciso se ter em pensamento que não se deve nunca substituir as massas nesse processo criativo e nem “pautar” o seu protagonismo. Aos poucos a melhoria no nível de compreensão das coisas irá favorecendo-as a entender o que se passa em toda e qualquer situação que se apresente.
Viva, então, o Dia do Trabalhador, um 1º de Maio de luta!


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