quarta-feira, 4 de junho de 2014

Democracia viva: por que ocupar o Estelita?

Ensaio[1]
03 de junho de 2014
Por Érico Andrade, filósofo e professor da UFPE.

Galpões destruídos só são sinônimos do atraso quando a sua destruição traduz um modo de pensar a cidade de maneira atomizada; como se fosse possível que cada construção, realizada isoladamente e com interesses distintos, pudesse, de forma espontânea, se harmonizar com o resto da cidade ou mesmo se harmonizarem entre si. O Recife é a demonstração de que isso não é possível. O caos no trânsito, a falta de saneamento, o entupimento das encanações e os esgotos que jorram a lama representam a falta de planejamento e de um crescimento absolutamente desordenado porque está entregue à iniciativa privada. Cada construção, uma estrutura autor-referente, uma muralha de concreto e um isolamento da cidade. Ilhas dentro das ilhas: mutilação.
A mutilação da cidade é silenciosa e acontece na calada da noite. Tão covarde quanto o silêncio constrangedor da prefeitura. A conivência criminosa da prefeitura ganha contornos ainda mais dramáticos quando não apenas as estacas da impunidade são cravadas no Estelita, mas também os capatazes fazem da violência arma de intimidação ou quando as escavadeiras apontam para os militantes como forças repressivas. O novo Recife repete as práticas mais deploráveis da história da cidade. Arroga o termo novo para pintar de patina o coronelismo que autoriza a bater, a torturar quem se coloca contrário aos seus desmandos e a intimidar quem não esmorece em face das ameaças mais sórdidas.
Mais do que velho o novo Recife é retrocesso. É retrocesso não porque repete a política feita de modo unilateral. Nisso ele é apenas velho. O retrocesso está nos seus tentáculos que invadem o poder judiciário que, sob o mando dos coronéis, afasta quem luta pelo patrimônio público e, acima de tudo, pela o estado de direito. Não podemos esquecer o afastamento, inexplicável, da promotora Belize Câmara. É importante ressaltar a cooptação da imprensa que insiste que os militantes, especialmente, os dos direitos urbanos são guardiões de ruínas quando eles pretendem, em última análise, defenderem o estado de democrático, os trâmites legais e, sobretudo, uma cidade planejada em que cada construção espelhe uma visão comum de cidade, coletiva e com uso misto, sempre que possível, dos espaços privados. Uso tão comum em cidades europeias muitas vezes idolatradas por quem é a favor do novo Recife.
Está na hora de vencer o discurso maniqueísta que divide a sociedade entre os que são a favor do passado idílico, porque supostamente estariam preocupados apenas em defender ruínas, e os que enxergam nas ruínas a marca indelével do passado cuja destruição é a única forma de fomentar o progresso. O que está em jogo no novo Recife é a oportunidade de reverter a lógica de que o passado e o futuro se excluem, a lógica de que a cidade pode ser construída sem que o estado de direito seja respeitado, sem que a devida e essencial discussão democrática, coletiva, sobre os destinos do espaço público seja realizada. É preciso entender que o novo realmente só acontece quando aprendemos que as ruínas do passado não devem ser o álibi para que a iniciativa privada invada o poder público, transgrida as leis e subjugue o Estado ao interesse das empreiteiras e dos seus capatazes travestidos de imprensa e políticos profissionais.



[1] Publicado originalmente em http://direitosurbanos.wordpress.com/2014/05/24/estelita-ocupado-democracia-viva/

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