segunda-feira, 12 de maio de 2014

PSOL-PMN e a luta por hegemonia

Boletim Abril 2014
09 de maio de 2014
Por Movimento Síntese Socialista

O PSOL PE resolveu aprovar uma coligação para as eleições 2014 com o PMN (Partido da Mobilização Nacional). Tendo sido procurado por este último, que informou que não iria compor com nenhuma das duas candidaturas majoritárias do espectro das classes dominantes do Estado (Paulo Câmara – PSB e Armando Monteiro Neto – PTB) e que aderiria unilateralmente às candidaturas do PSOL, aliado ao fato do PMN ter sido avaliado como um partido “sem identidade ideológica”, o PSOL entendeu que a coligação com tal partido evidencia o acerto na linha política que até aqui vem conduzindo na luta por romper o cerco da ampla hegemonia construída por Eduardo Campos (PSB). Mas, trata-se de uma luta contra-hegemônica em progressão ou mero pragmatismo eleitoral?
O quadro político no Estado de Pernambuco é bastante desfavorável para as forças sociais e populares antissistêmicas. Por um lado, temos uma ampla gama de partidos e forças sociais conservadoras – o anterior adversário Jarbas Vasconcelos (PMDB) aderiu, e até o PSDB se somou à liderança de Eduardo Campos –, adeptos do modelo de administração tecnocrático, neodesenvolvimentista, antidemocrático e privatizador, cuja continuidade é representada pela candidatura de Paulo Câmara (PSB). Por outro lado, Armando Monteiro Neto (PTB) tenta cavar o seu próprio espaço político após o declínio petista e a ascensão de Eduardo Campos, que ele mesmo ajudou a construir. Não deixa de ser irônico e simbólico que logo um partido que se diz dos trabalhadores (PT) venha a se conectar com um dos mais destacados representantes das forças do capital de Pernambuco, seja ele industrial ou agrário.
Neste deserto neodesenvolvimentista privatizante em que se encontram as organizações e movimentos sociais anticapitalistas de Pernambuco, ter um assento ou uma cadeira no parlamento estadual ou municipal pode ser de fato muito importante para a articulação, denúncia, organização popular e acumulação de forças contra-hegemônicas. Mas não é irrelevante a forma como se conquista uma posição e um espaço institucional como esse.
Não deixa de ser súbito o anúncio da coligação do PSOL com o PMN. Pouca ou nenhuma aproximação em eleições anteriores e nem mesmo – o que é mais importante – campanhas, frentes e lutas conjuntas cotidianas no período passado. O PMN foi fundado em 1990 e em 2002 fez parte da coligação que elegeu Lula (PT) como presidente. Mas em 2010, aliou-se ao PSDB, DEM, PTB e PPS e defendeu a candidatura de José Serra (PSDB). Ensaiou fusão com o PPS já por duas ocasiões. Em Pernambuco, o PMN tem no deputado estadual Severino Ramos, que teve mais de 20 mil votos nas eleições 2010, o seu nome mais conhecido, além de uma ligação umbilical com a UGT, central sindical cartorial que vive do imposto sindical. Teve também um dos seus vereadores envolvidos no esquema de corrupção em Caruaru. Após esses fatos e os zigue-zagues eleitorais, o que faz um partido “sem identidade ideológica” aproximar-se da oposição de esquerda ao governador? Onde estava o PMN quando estudantes e trabalhadores lutaram por um transporte público de qualidade? Quando ativistas pelos Direitos Urbanos desafiavam empreiteiras e medidas privatizantes das prefeituras do PT e do PSB? Quando os ambulantes protestavam pelo direito de venderem suas mercadorias? Quando os sem teto demandavam moradia? Quando os trabalhadores de Suape cobravam condições de trabalho? Quando as mulheres lutavam por políticas de redução da violência contra elas? Quando as entidades de Direitos Humanos denunciavam a criminalização dos movimentos sociais e os despejos da Copa da FIFA? O PMN não é parte de uma nova política tão exigida pelas ruas.
É verdade que outros partidos de oposição de esquerda não conseguiram formular uma plataforma inteligível e não souberam trabalhar os problemas mais sentidos pelo povo pernambucano. Isso também explica seus baixos desempenhos eleitorais, muito abaixo do PMN, por exemplo. Mas o que esta coligação parece evidenciar é a tentativa do PSOL em constituir (após os ensaios de unidade com Clóvis Correia (PP) e com o PDT) um campo político onde não caibam as demais organizações e movimentos tradicionalmente ligados aos interesses populares e do trabalho. O PSOL PE, ao invés de privilegiar o relacionamento com as forças e organizações que cotidianamente estão muitas vezes juntas na luta contra vários aspectos do neodesenvolvimentismo, dá prioridade ao PMN. Em nome de uma cadeira na ALEPE, escolhe a linha de menor resistência.
Uma nova hegemonia é a capacidade política de organizar e dirigir uma sociedade a partir de uma nova visão de mundo e com uma nova maneira de pensar, agir e sentir. Não é com o PMN, a partir dessa forma e levando em conta esses elementos, que se construirá uma nova hegemonia popular, uma nova política. Quando a realidade grita por uma alternativa emancipatória aos projetos irmãos da velha política de Paulo Câmara e Armando Monteiro Neto (ou de Dilma, Aécio ou Eduardo) e, na Paraíba, PSOL, PSTU e PCB estão prestes a anunciar no dia do trabalhador a conformação de uma frente eleitoral de esquerda, o PSOL PE segue outro caminho.

Um comentário:

  1. Junção lamentável e que teve resistência dentro do partido, mas infelizmente o Edílson tem grande maioria, conseguiu costurar essa aliança.

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