segunda-feira, 5 de maio de 2014

Pelo fim da violência nos estádios de futebol

Ensaio
04 de maio de 2014
Por René Cortez, trabalhador e ativista social

Foi com imensa consternação que li nos jornais as notícias sobre o assassinato de um torcedor do Sport na sexta feira (02/05/2014) no estádio do Arruda na partida entre Santa Cruz e Paraná pela terceira rodada da Série B. O fato de um crime tão estúpido contra a vida humana por si só é muito triste e revoltante. Pior foi descobrir depois de abrir o jornal que o jovem assassinado se tratava de um amigo.
Paulo Ricardo Gomes da Silva ou Paulinho (como era chamado pelos amigos) era montador de estruturas metálicas, operário do Estaleiro Atlântico Sul. Trabalhei com Paulinho em 2011 na Refinaria Abreu e Lima em Suape nas obras da UDA (Unidade de Destilação Atmosférica - UDA 11) pelo consórcio Conest/Renest. Em 2012, encontramo-nos novamente quando realizávamos um teste para entrar no Estaleiro Atlântico Sul (atual empresa de Paulinho).
Lamentavelmente, ao fim do jogo quando Paulinho saía do Arruda para retornar para sua casa no bairro do Pina, torcedores do Santa Cruz jogaram da arquibancada superior do estádio (24 metros) dois vasos sanitários nos torcedores do Paraná que passavam embaixo. Três pessoas ficaram feridas. Paulinho foi atingido em cheio na cabeça e faleceu no local.
Paulinho era um jovem muito alegre, brincalhão e sempre sorridente. Destacava-se também por ser um operário consciente, pois tinha clareza da grande missão de sua classe. A perda de Paulinho não é uma perda apenas de seus familiares e dos trabalhadores do estaleiro. É uma perda de toda a classe trabalhadora.
Neste momento, palavras são insuficientes. Mas declaro minhas sinceras condolências à família de Paulinho. Aos companheiros do estaleiro e aos torcedores de todos os times, peço um momento de reflexão sobre esta guerra nos estádios.

Origem da violência nos estádios?
A violência entre torcidas organizadas tem a ver com a forte rivalidade no futebol. Contudo, este não é o único elemento presente nesses atos insanos e irracionais praticados por membros de torcidas organizadas/uniformizadas. Existe atualmente na sociedade uma profunda crise de valores. A violência vem se consolidando entre os jovens como algo natural e convertendo-se numa linguagem universal, principalmente entre a juventude proletária. As torcidas organizadas se transformaram num meio para deflagrar atos de revolta, selvageria e brutalidade. Mas não só isso. É preciso dizer com todas as letras que hoje as torcidas organizadas no Brasil, em sua maioria, são “gangues”.
Sou um frequentador assíduo de estádios (sou torcedor do Sport Recife), seja nas arquibancadas ou nas gerais. Percebo que muitas vezes boa parte dos torcedores não entende porque torcedores da mesma torcida uniformizada brigam entre si.
Bem, na maioria dos casos, essas brigas têm a ver com rivalidades entre comunidades. Por exemplo, Santo Amaro versus João de Barros, Coque versus Coelhos, Ibura versus San Martin. Essa rivalidade, na maioria das vezes, se dá por conta do controle do tráfico na área ou região. Ou seja, são brigas de traficantes que a juventude acaba comprando para si. Como majoritariamente a composição das torcidas é formada por jovens das periferias, é comum acontecer esses tipos de confrontos de torcedores da mesma uniformizada.
Para que se entenda melhor o que digo, vou dar um exemplo dentre vários outros que tenho conhecimento e que já vivi: aqui em Recife existem três comunidades em guerra: Santo Amaro, João de Barros e Ilha de Joaneiro. Todas próximas entre si e divididas apenas pela Avenida Norte e pela Avenida Agamenon Magalhães. Na Ilha de Joaneiro, existe uma gangue conhecida por DI (Demônios da Ilha), rival da comunidade de Santo Amaro. Nas duas comunidades tem torcedores do Sport e integrantes da torcida Jovem/Sport. Quando ambos os grupos se encontram, acontece o confronto.
Mas também é comum brigas de torcidas uniformizadas de times diferentes. Em nosso caso, aqui em Pernambuco, os principais confrontos são entre torcedores da Jovem/Sport, Fanáutico/Náutico e Inferno Coral/Santa Cruz. Neste caso, a rivalidade entre times diferentes toma contornos animalescos.
Outro elemento que contribui para a proliferação da violência entre as torcidas é a alienação e o vazio cultural da imensa maioria dos jogadores de futebol. Na final do Campeonato Pernambucano de 2014, na partida entre Náutico e Sport, o atacante leonino Neto Baiano desferiu ao vivo, nas TVs e Rádios, comentários que em vez de ajudar só contribuem para o acirramento entre as torcidas. Anos atrás, o ex-atacante do Náutico, Kieza, queimou em um trio elétrico no meio da Avenida Imbiribeira um boné da torcida Jovem do Sport.
É preciso dizer também que os hábitos e valores que os jogadores disseminam também não ajudam e nem servem de referencial. É comum ver na maioria dos jogadores de futebol a ostentação e valorização aos bens materiais, o apelo e culto ao consumo de mercadorias. Essa junção entre declarações que estimulam a violência com o apelo ao consumo cria no futebol um quadro de referências negativas para toda a juventude que no meio da decomposição social e moral do capitalismo já tem poucas perspectivas.

Qual a solução para acabar com a violência nos estádios?
Em primeiro lugar é necessário uma intervenção do Estado. Entretanto, o Estado e suas instituições são um dos principais responsáveis pela violência no futebol, pois ela é uma questão estrutural. Por mais que ainda exista essa contradição e que as medidas sejam insuficientes e paliativas, é necessário frear esse quadro degradante nos estádios de futebol brasileiros.
Nesse sentido, os primeiros a serem cobrados devem ser os dirigentes de clubes e as federações de futebol. Essas entidades devem coibir a violência crescente. É preciso aplicar medidas políticas e jurídicas que sejam viáveis. Os dirigentes de clubes que mantêm relações dúbias, promíscuas, comerciais e politiqueiras com as torcidas organizadas devem ser punidos criminalmente e banidos do futebol.
Todos que participam ou já participaram de uma torcida organizada sabem que existem esses tipos de favorecimentos entre o dirigente de um clube e a cúpula de torcidas organizadas, seja na doação de ingressos, no financiamento de viagens ou caravanas da torcida para acompanhar o time ou mesmo relações ilícitas no processo político dentro do clube ou externamente.
Outro ponto importante a destacar é a aplicabilidade do Estatuto de Defesa do Torcedor (em vigência desde 2003). Por fim, para efetivamente combater a violência no futebol é preciso inserir essa discussão no contexto macro da realidade social brasileira. Só assim podemos esperar avanços reais.

Contra a violência entre torcidas e a favor das torcidas organizadas
O fim ou a proibição das torcidas organizadas não é a solução. Precisamos fazer com que as torcidas organizadas se tornem efetivamente um espaço de convivência da juventude que busca lazer, cultura e entretenimento, seja nos dias de jogos ou não.
A grande maioria das torcidas organizadas funciona como associações civis, com sede própria, estatuto, CNPJ e corpo diretivo. Desse modo, o Estado não pode criar normas proibitivas que limitem o funcionamento dessas entidades. Fechar as torcidas organizadas atenta contra o próprio princípio da Constituição de 1988 de nossa democracia liberal. Os dirigentes de torcidas organizadas também devem colaborar para o fim da violência entre torcidas banindo os integrantes reincidentes em atos de violência.
Colocamo-nos contra a violência entre as torcidas organizadas e exigimos a máxima punição aos agressores e assassinos que difundem a violência entre as torcidas. Mas nos colocamos contra quaisquer medidas proibitivas ou restritivas contra as torcidas organizadas.

“Nem guerra entre torcidas, nem paz entre classes”
(Lema da torcida Resistência Coral do Ferroviário do Ceará)
Em suma, a violência entre as torcidas organizadas no Brasil é uma violência de uma classe contra si mesma, contra seus irmãos de classe. Ou seja, são jovens pobres, trabalhadores (em sua maioria negros) agredindo e matando outros jovens pobres, trabalhadores e negros.
Pior ainda é que um instrumento de lazer e entretimento da classe trabalhadora como é o futebol, acabou sendo apropriado pela burguesia para extrair do futebol seus lucros. Nesse megaesquema estão envolvidos cartolas, políticos, empresas e bancos que comandam os clubes.
Somos jovens e trabalhadores de uma mesma classe social, de um mesmo bairro, de uma mesma faculdade ou escola, frequentamos os mesmos bailes, bregas e pagodes. Contudo, perdemos nossa identidade de classe e enxergamos nossos irmãos como inimigos e adversários a ser combatidos. Defendemos que as coisas não devam seguir por esse caminho. Meu inimigo não é colega de geral! Meu adversário não é meu amigo de trabalho! Luto contra o capitalismo! A burguesia é minha inimiga!

Paulo Ricardo, Presente! Paulo Ricardo, Presente! Paulo Ricardo, Presente!

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