segunda-feira, 26 de maio de 2014

Os saques e a insegurança da sociedade durante a greve da PM (parte 2)

Ensaio
25 de maio de 2014
Por René Cortez, trabalhador e ativista social

No texto anterior (parte 1), esforçamo-nos em fazer uma análise para tirar algumas conclusões deste processo, sobretudo do papel da polícia. Muitos trabalhadores no dia seguinte às ações de pequenas parcelas da população, diziam que saquear as lojas se tratava de um crime. Outros diziam que os saques deveriam ocorrer e que estava correto entrar nas lojas e supermercados e pegar tudo o que pudessem levar nas mãos. Já a imprensa, noticiou amplamente as imagens das pessoas entrando nas lojas e saindo com diversos tipos de objetos, espetacularizando essas ações. Juristas, promotores, governos, prefeituras e burguesia como um todo exigem prisões e punições severas aos responsáveis pelos atos, pois para eles é importante que nesse processo de saques ocorram prisões para não encorajar outras pessoas em futuras ações semelhantes.
Bem, nesta segunda parte do texto, propomo-nos a refletir sobre essas ações. Até que ponto podemos considerar os saques em Paulista, Abreu e Lima, Cavaleiro e demais cidades da Região Metropolitana de Recife e interior de Pernambuco uma ação legítima das massas? Até que ponto tais ações podem ser consideradas positivas?

Sobre os saques durante a greve
Existe um elemento novo e complexo nos saques ocorridos durante a greve da PM na RMR. Os saques foram diferentes dos saques ocorridos nas cidades atingidas pela seca. O que observamos foi uma fração da população saqueando o comércio em busca de bens de consumo duráveis (TVs, geladeiras, máquinas de lavar, computadores e etc.). Em alguns casos, roupas, sapatos, bebidas. Ou seja, os artigos alimentícios não eram o principal alvo dessas ações. Ainda que algumas redes de supermercados também tenham sido alvo dessas ações, os alimentos não chegaram a ser ao principal objetivo das pessoas.
Em cidades atingidas pela seca, a população, quando empreende os saques, busca alimentos e água potável. Entre uma TV e um produto alimentício, os trabalhadores atingidos pela seca dão prioridade à alimentação. Nos recentes saques ocorridos na RMR observa-se o contrário. Isso se deve muito em função ao apelo das campanhas publicitárias para o consumo de mercadorias, sobretudo os artigos de consumo duráveis.
Em relação aos saques, considero importante fazer o debate sem a ótica do certo ou errado, pois esses saques representam uma resposta de uma fração dos explorados ao apelo das propagandas ao consumo desenfreado de mercadorias. Essa fração da população encontra-se excluída do consumo, diferente dos trabalhadores formais que, nos 14 anos de governo do PT, passaram a consumir mais.

Quem esteve à frente dos saques?
Considero um ponto importante responder essa pergunta para não cair em visões impressionistas, fetichizar argumentos e querer dar um sentido a essas ações a partir de nossas vontades pessoais. Neste sentido, para mim não foi a classe trabalhadora ou o conjunto de trabalhadores formais que realizaram os saques, mas uma fração dos trabalhadores. Para tanto, antes de tudo, é importante fazer um debate sobre classe social.
Classe social são grupos de pessoas diferenciadas pela posição que ocupam no processo de produção social e pela relação direta com os meios de produção. No capitalismo, temos a classe que com suas forças produz as riquezas e a classe que se apropria das riquezas e do trabalho da primeira, ou seja, os explorados e os exploradores, os de baixo e os de cima.
As classes sociais que produzem as riquezas e que vivem da venda de sua força de trabalho chamam-se de proletários ou, como defende Ricardo Antunes, a classe-que-vive-do-trabalho: “a classe-que-vive-do-trabalho compreende a totalidade dos assalariados, homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho e que são despossuídos dos meios de produção”.
Existe também no interior da classe que vive do trabalho, um conjunto de trabalhadores improdutivos, ou seja, aqueles trabalhadores cujas formas de trabalho são utilizadas nos serviços públicos e privados. O trabalho desse grupo de trabalhadores é considerado como improdutivo, pois não constitui-se como elemento vivo no processo de valorização do capital e de criação de mais-valia. O trabalho desses trabalhadores é consumido como valor de uso e não como trabalho que cria valor de troca.
Ainda, ao lado dos trabalhadores produtivos e improdutivos existe um setor social chamado de lumpemproletariado. Esse setor social é uma fração de classe formada por todo tipo de pessoas produzidas pela sociedade capitalista, ou seja, são trabalhadores que vegetam no pauperismo, miséria e em condições de vida diferentes ou abaixo do proletariado. Ainda que sejam aptos para o trabalho, encontram-se excluídos do processo de produção social.
Majoritariamente foram setores do lumpemproletariado que realizaram os saques. Sem dúvida, setores dos trabalhadores formais, crianças e operários também participaram dos saques a lojas, supermercados e outros estabelecimentos comerciais. Contudo, o amplo setor social que empreendeu essas ações não foram os setores do proletariado, mas sim uma fração desestruturada da classe.
Por que é importante fazer essa localização de classe? Primeiro, porque a classe trabalhadora não tem nada a ver com o lumpemproletariado, seja na forma da consciência seja nas ações práticas. No Brasil, há um amplo setor da sociedade que se encontra excluída do consumo, inclusive com condições de vida abaixo dos trabalhadores formais. São inúmeras famílias com orçamentos limitados e com um nível de instrução muito baixo.
Os saques ao comércio realizados por essa fração de classe, na ausência de uma perspectiva mais estratégica, acabaram se transformando num fim em si mesmo, reproduzindo através dos saques uma visão social e psicológica no desejo a objetos como: TVs, PCs, celulares e etc.
A verdade é que o lumpesinato se encontra excluído do processo de produção, excluído do mercado capitalista do consumo desenfreado e também distante das intervenções das organizações socialistas brasileiras que priorizam a classe operária e os trabalhadores formais. Ou seja, essa fração da sociedade encontra-se à deriva.

A greve da PM e a insegurança na cidade
O medo, a violência e a insegurança cotidiana se converteram em estado natural. Através de medidas individuais, as pessoas vão amenizando essas mazelas e sobrevivendo numa sociedade cada dia mais decadente. Na greve da polícia, o que se viu foi o já habitual quadro de violência urbana se ampliar em proporções ainda maiores.
Na assembleia (15/05) da polícia militar em frente à sede do governo (Palácio do Campo das Princesas) vi a associação de cabos e soldados legitimando e defendendo a existência da polícia a partir do quadro de insegurança instalado em Recife. No dia seguinte, alguns trabalhadores se questionavam sobre o quadro caótico de Recife instalado na ausência da polícia.

Sabemos que como instrumento de repressão e coerção, a polícia mantém os subalternos sobre controle, guardando o sono dos ricos e deste modo evitando acontecer o que Josué de Castro dizia: “metade da população não dorme porque tem fome e a outra metade não dorme porque tem medo de quem tem fome”. Portanto, a insegurança que observamos nos dias de greve não pode ser atribuída apenas à ausência da polícia. Ela precisa ser entendida dentro do contexto social mais geral da sociedade.

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