sexta-feira, 2 de maio de 2014

Os fins não justificam os meios

Ensaio
01 de maio de 2014
Por Leal de Campos, militante socialista e ex-preso político.

No sentido em contrário às colocações feitas por alguns dirigentes, militantes e simpatizantes do Partido dos Trabalhadores (PT), que tentam amenizar os “deslizes” de alguns companheiros petistas e de seus aliados políticos, Olívio Dutra, histórico militante da esquerda e também fundador do partido, disse enfaticamente: "O que não se pode admitir é o ‘toma-lá-dá-cá’ nas práticas dos mensalões de todos os partidos, nas quais figuras do PT participaram". Então, dito isso, é preciso dizer mais? Com certeza que... Não!
Mas, o que precisamos trazer de volta para a discussão sobre as esquerdas brasileiras é a análise crítica sobre o caráter “messiânico” das suas lideranças, que passam a contar com apoios sem nenhuma restrição. São os nossos “salvadores da pátria” amada. São os “nossos heróis” de ontem e de hoje. Acrescentando ainda que “se os conservadores têm os deles também nós temos os nossos”. Isto sendo exposto numa leitura banal da História e de suas exemplares lições, que não são sequer estudadas para serem assimiladas em seu correto conteúdo.
Esse é um raciocínio que reflete a indigência do pensar das esquerdas num momento crucial do processo de lutas na América Latina, em que se prioriza um aparente enfrentamento ao imperialismo estadunidense na região, sem atacar a sua essência intrínsica que é o Capitalismo. São as nações capitalistas que viabilizam e reforçam as ações imperialistas em todas as partes do mundo, independentemente de sua crise sistêmica, tal como está ocorrendo no continente europeu.
De outro lado, o neopopulismo latino-americano, em suas inúmeras e variadas expressões políticas, condicionam as práticas e as ações a um método próprio de atuação, na qual “os fins justificam os meios”. Acham-se os líderes “ungidos” para executarem atos sem terem que dar mínimas satisfações aos outros e muito menos sem avaliarem as suas consequências posteriores. Só lhes interessam os arranjos eleitorais e administrativos para alcançar e permanecer no “poder” por muito mais tempo. Vale tudo! Das alianças e coalizões com os setores conservadores da centro-direita até a aceitação do fisiologismo mais descarado. Ora, para todos eles, o que importa é a “governabilidade” e os acordos com os grandes grupos econômico-financeiros internos e externos, desde que possibilitem lhes assegurar um “desenvolvimento capitalista modernizante”. Ou seja, uma expansão econômica a qualquer custo.
Aqui, no Brasil, essas conhecidas combinações passam pela simbiose política da junção do lulo-petismo com o peemedebismo, ou seja, populismo e fisiologismo agregados para administrar o capitalismo nacional e dele retirar mais vantagens em lucros. Enquanto estimula uma acumulação do Capital eles também acumulam algumas inexplicáveis fortunas financeiras “não contabilizadas” devidamente. Uma verdadeira farra sem freios! Sustentada por uma recorrente “dissimulação” e providencial astúcia, objetivando enganar a todos, isto é, a toda a população desinformada. O que prevalece, nesse caso, é a imagem midiática de “políticos do povo”, do “pai” ou da “mãe” dos pobres e necessitados em geral. Uma política de encenação, de “pão e circo”.
Os programas ditos sociais fazem parte do outro lado da mesma moeda, pois embora redistribuindo um pouco da renda eles não alteram a relação desigual entre os mais ricos e os mais pobres, possibilitando outra conjunção artificial que é a de juntar liberalismo econômico com alguns projetos assistencialistas - o que se constitui num “social-liberalismo”. Um conveniente hibridismo político, que somente esconde a verdadeira face do sistema. “Afinal, somos a 6ª economia do planeta e fazemos parte de um processo de expansões econômicas de alguns países, que incluem também a Rússia e a África do Sul, além da China e Índia” - dizem os arautos desse modelo econômico, excludente e concentrador de riquezas.
Com efeito, apesar de todas as dificuldades para se “desconstruir” esse discurso hegemônico do neopopulismo, em todos os níveis, faz-se necessário aprofundar a discussão sobre o caráter e a lógica do sistema capitalista, defendendo-se algumas questões de princípios, visto que “não se pode justificar os meios pelos fins alcançados”. Nunca! Que se façam, portanto, as denúncias contra todas as ações fisiológicas e se exija o pleno estabelecimento da ética na política, como um oportuno complemento a outras reivindicações de combate selado aos estigmas e às mazelas do Capitalismo.
A partir de Junho ano passado ficou claro que vários segmentos da população brasileira esgotaram a sua paciência e querem respostas mais adequadas às suas necessidades diárias de saúde, transporte, educação e moradia, principalmente.  Por conseguinte, cabe a nós, que não acatamos a intrujice e o embuste, a imprescindível tarefa de lutar para que a verdade e a lisura passem a ser coisas usuais e rotineiras, superando os entraves e os impasses que impedem essas correções.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.