segunda-feira, 19 de maio de 2014

O 15M em Pernambuco

Ensaio
16 de maio de 2014
Por Alex Bandeira, ex-militante metalúrgico da Convergência Socialista/PSTU. Foi fundador da CUT e do PT. Hoje colabora com o Síntese Socialista.

O 15 de Maio marcou a entrada em cena dos setores precarizados do proletariado em conjunto com a periferia empobrecida, na sua maioria negra, da região metropolitana do Recife na onda de protestos sociais. Houve uma sublevação que se insere na mudança de uma situação aberta com as jornadas de junho no Brasil.
As ações, motivadas pela falta de policiamento no Estado devido à greve da Polícia Militar de Pernambuco, deveu-se, diga-se de passagem, por justas reivindicações salarial e por melhores condições de trabalho.
Abriu-se uma crise, ou seja, esgarçou-se o tecido social há muito represado. De um lado, pelos anos de expectativas com governo Lula e seus aliados no Estado, que surfaram na onda das medidas compensatórias e numa política de créditos. Essa política esgotou-se e os índices de inflação já são um peso significativo na balança econômica. Por outro, a repressão histórica do Estado em armas contra essa mesma população.
O que vimos na última semana foi uma avalanche de mobilizações de massas, ainda que de carácter espontâneo, muito radicalizada, como no geral ocorreu em outras regiões do país, com bloqueios, arrastões, distúrbios, quebra-quebra, etc. Todavia, com um diferencial: foram saques para próprio sustento de amplas massas, protagonizados pela periferia extremamente pauperizada e enfurecida com os desmandos do governo por questões mais imediatas e que está jogada à própria sorte. A falta das condições mínimas de sobrevivência como, por exemplo, fazer três refeições por dia.
Jovens, em sua maioria desempregados, mulheres grávidas, velhos, crianças, pessoas de todas as idades, saquearam o que encontravam pela frente. Mas, entre os saques, os gêneros alimentícios, e os supermercados, foram os alvos preferenciais da população.
Combinado a tudo isso, outros setores organizados, como o dos sem-teto, reivindicavam moradia, protestavam contra os despejos da Copa da FIFA e contra a sanha das grandes empresas imobiliárias em torno da especulação de um dos metros quadrados mais caros do Brasil. Áreas geográficas supervalorizadas que o governo do então candidato a presidente da república, Eduardo Campos (PSB), em parceria com a prefeitura do PT, destinaram aos grandes conglomerados imobiliários. O resultado disso foram os inúmeros despejos sem indenização ou com indenização muito abaixo de um valor suficiente para que as famílias pudessem obter sua casa própria. Por fim, os batalhões de choque garantiam a ordem na evacuação de comunidades inteiras.
Em resposta, os sem moradia levantaram barricadas em plena Avenida Caxangá, uma das avenidas mais movimentas e que liga o centro do Recife a bairros populosos com a saída para BR-101. Recife ficou sitiada. Em certa hora, ficou completamente fantasma. O comércio fechou suas portas e o clima de medo tomou conta da cidade. No entorno do centro, a população de mais 20 bairros promoviam diversos saques e bloqueios nas principais avenidas, e caos se estabeleceu.
Além dos sem tetos, os operários do consórcio da Refinaria Abreu e Lima em Suape mantinham-se em estado de greve, tentando negociar uma pauta de reivindicações defensivas. O simples motivo: o recebimento de três meses de salários atrasados que a empresa não se dispunha a pagar. Os operários fecharam o acesso ao canteiro de obras das empresas, paralisando todas as atividades do complexo, no sentido de pressionar as empresas e a própria Petrobras a abrir um canal de negociação. Diante disso, o governo do Estado em parceria com a presidência da república, utilizou a Força Nacional e montou uma verdadeira operação de guerra contra os grevistas, transformando o complexo de Suape em um literal campo de batalha. Mesmo assim, os trabalhadores não recuaram e prosseguiram na luta.

Quem está no campo dos precarizados e da periferia negra
Todos os jornais de grande circulação de Pernambuco, incluindo a rede Globo de televisão, já escolheram seu campo e se expressaram através de suas capas e matérias, felicitando a chegada da Tropa Nacional de Segurança que ocuparam as orlas marítimas da praia de Boa Viagem e dos bairros nobres do centro do Recife com seus tanques de guerra e sua infantaria pesada. Setores da burguesia, responsáveis pelo consórcio da refinaria, dos comerciantes do grande Recife, dos setores imobiliários e todos os políticos liberais que se encontram na assembleia legislativa e câmara municipal, democratas e trabalhistas de todos os matizes, deram as mãos em uma santa aliança para combater os chamados marginas ou bandidos, assim denominados pelas grandes mídias do Estado.
O chefe do PT nacional, o ex-presidente Lula, afirmou: "O país está preparado para a COPA dentro e fora dos estádios e vai fazê-la....". Não é preciso dizer que todas as figuras petistas do Estado, de João Paulo a Tereza Leitão, também gritaram "Viva o Exército Brasileiro" e defenderam um maior endurecimento dos órgãos de repressão para conter as manifestações populares, em defesa da famigerada lei de segurança nacional padrão FIFA.
A permanência da Tropa Nacional de Segurança em Pernambuco é uma política do governo federal de Dilma Rousseff em colaboração com toda a burguesia nacional e seus partidos, incluídos o PSDB e o PSB de Eduardo Campos e Marina Silva, a estrela do capitalismo verde.
Figuras como Aldo Rebelo do PCdoB, que compõe a base de sustentação, inclusive tendo livre acesso dentro dos movimentos sociais, desmoraliza toda a base do seu partido ao fazer um chamado à juventude e aos trabalhadores para confiarem plenamente nas ações de um governo reformista que não conseguiu, nos 10 anos em que esteve à frente do Estado, fazer nenhuma reforma substancial.
Até o fechamento dessa matéria, as centrais sindicais não tinham se pronunciado em nenhuma nota de apoio à luta dos trabalhadores da refinaria Abreu e Lima diante da repressão ocorrida durante as mobilizações no complexo de Suape, nem nos acontecimentos do 15 de Maio.

A nossa política e as tarefas para o movimento
Nós da esquerda socialista temos um campo e esse não pode ser outro do que aquele que busca a mobilização permanente dos trabalhadores e de seus aliados e que procura atualizar a construção de um programa para a revolução brasileira. Entre as tarefas mais urgentes, em primeiro lugar precisamos exigir a retirada imediata das tropas de segurança nacional de nosso Estado!
Em segundo lugar: abertura imediata de todas as negociações trabalhistas e com todas ocupações dos moradores em luta! Terceiro: por um salário atualizado pelo Dieese para todos os cidadãos desempregados maiores de 18 anos! Quarto: apuração dos assassinatos da população por parte dos agentes de segurança à paisana! Quinto: exigimos que as centrais sindicais se posicionem contra a ocupação da Tropa Nacional e em defesa dos trabalhadores e todos os oprimidos!
Nós não nos consideramos donos da verdade. Queremos construir um programa para apresentar aos trabalhadores e à população pobre excluída. Queremos e podemos construir juntos um programa e uma alternativa de esquerda à hegemonia do petismo que abandonou a luta dos trabalhadores e da periferia. Devemos ir às ruas contra os tanques e pelo atendimento de nossas reivindicações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Adicione seu comentário.