segunda-feira, 26 de maio de 2014

Nas mãos de Deus

Ensaio
25 de maio de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

Nunca houve um divórcio tão perfeito entre o mundo da fantasia organizada dos governantes deste país e a realidade das ruas. Enquanto os ministros de Estado, o governador em exercício e o ex-governador de Pernambuco apareciam se confraternizando, bebendo champanhe e dando declarações de que tudo estava na maior harmonia, de que a população está muito satisfeita com a Copa, com o custo de vida, com a prestação dos serviços públicos etc., aqui fora (do reino da fantasia), o mundo real pegava fogo. Fomos surpreendidos em plena mesa redonda, na UFPE, com a presença de integrantes do governo do Estado, com a notícia da suspensão das atividades letivas em função do caos social que se instalou no Estado de Pernambuco, com a paralisação das polícias civil e militar. Num minuto, a imagem de um Estado governado pela paz e a concórdia mudou através das imagens divulgadas pelas redes de televisão do Brasil inteiro, de saques à mão armada em plena luz do dia e arrastões de multidões desenfreadas nas lojas de eletrodomésticos e supermercados da região metropolitana do Recife. O que dizer desse descompasso entre a fala oficial e as ruas?
Em primeiro lugar, que o famoso "pacto pela vida" expôs a sua fragilidade social. É um pacto pela segurança jurídica e militar de cidadãos-consumidores (privados) e o comércio de um modo geral. Naturalmente, a segurança vai muito mais além da proteção dos bens de consumo privados e da rede de lojas que os vende através de módicas e longas prestações. Um conceito ampliado de segurança teria a ver com certeza com o déficit de cidadania republicana da maioria das pessoas, não só dos cidadãos consumidores. Segurança envolve educação, saúde, transporte público, saneamento e esgotamento sanitário, renda e emprego, lazer e respeito ao direito das minorias. Só um governo preocupado exclusivamente em proteger bens e a vida dos cidadãos consumidores do país, se empenharia em garantir segurança para o comércio e os automóveis, condomínios etc. O problema da segurança é o problema dos direitos que a maioria da população não tem. Chama-se exclusão social. Não podemos dividir a sociedade em duas metades: a que tem acesso irrestrito a bens e produtos - inclusive através do crédito - e aquela outra parte que não tem, mas quer ter (como todo mundo), em função da persuasiva propaganda da televisão que diz: “ser cidadão é ter uma televisão LED”; “ser cidadão é ter uma fogão de 8 bocas”; “ser cidadão é ter um carro importado e morar à beira-mar de Boa Viagem”.
Em segundo lugar, está o modelo de inclusão social patrocinado pelo "neodesenvolvimentismo" de Dilma Rousseff, a chamada nova classe média dos 18 milhões de novos consumidores e o “american way life" difundido pelo PT no Brasil. Ao invés de investimentos maciços na qualidade de vida do cidadão brasileiro, como, aliás, foi prometido pela presidente depois das manifestações de junho de 2013, o que vimos foi o discurso de que a realização da Copa do Mundo iria redimir o país da miséria, por certo com o apoio das tropas federais nas capitais-sede do Mundial de Futebol. Esse modelo de inclusão social pode ser muito bom para as montadoras internacionais de carros no Brasil e a indústria de bens de consumo duráveis eletroeletrônicos. Mas para quem não pode comprá-los porque não tem crédito, emprego, renda ou alguma garantia para oferecer, é péssimo. Causa uma espécie de frustração ou complexo de inferioridade social muito grande. Na primeira oportunidade, esses marginalizados pela cidadania do consumo vão querer usufruir de todos esses bens. É um direito que eles têm.
Em terceiro lugar, entregar a uma corporação policial o monopólio legal da violência para que ela possa chantagear a sociedade quando lhe convém é um imenso risco. Quem vai garantir que isso não se repita daqui a trinta, quarenta ou cinquenta dias? Quando a corporação (detentora do poder de polícia) ameaça e faz a paralisação, dá uma senha explícita para que, os que querem consumir e não podem, avancem sobre as gôndolas dos supermercados e os showrooms das lojas de eletrodomésticos para o saque, o aresto, a depredação etc. Quem é mais criminoso neste caso?
E não se diga que tudo isso não passa da inveja e o preconceito da classe média tradicional em relação aos novos cidadãos-consumidores criados pelo "neodesenvolvimentismo" de Dilma. Há muita gente boa que não apoia nem os saques nem a paralisação da polícia, mas que também não comunga com esse modelo de inclusão social. E isto porque acha muito importante aperfeiçoar a rede de serviços públicos (o SUS, a escola pública, o transporte público etc.) que o Estado brasileiro tem e que anda sucateada pelo descaso dessas mesmas autoridades que estão comemorando, com champanhe, a proximidade dos jogos da Copa do Mundo em nosso país.


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