quinta-feira, 22 de maio de 2014

Libertação animal sem libertação humana: o estranho caso dos veg(etari)anos reacionários

Ensaio[1]
21 de maio de 2014
Por Robson Fernando de Souza, militante vegano

Nada é mais esquisito e constrangedor do que pessoas defenderem uma ou mais causas de minorias políticas, mas ao mesmo tempo negligenciarem ou mesmo se oporem ativamente a outras também referentes a categorias oprimidas, como é o caso de negros heterossexistas ou gays com preconceito de classe. Nesse contrassenso lógico, estão incluídos os vegetarianos e veganos reacionários, assumidamente conservadores ou mesmo regressistas para causas humanas.
Vários comportamentos reacionários de veg(etari)anos conservadores foram flagrados por mim ao longo dos últimos dois anos no meu mural do Facebook. Uns defendem que o golpe militar de 1964 foi “necessário” para “evitar uma ditadura de esquerda”. Outros curtem e compartilham conteúdo de páginas homofóbicas, misóginas e/ou de extrema-direita. Alguns outros dizem com todas as palavras que são contra o feminismo.
Outros defendem leis para proteger os animais ao mesmo tempo em que pregam o anarcocapitalismo e são contra qualquer cultura de solidariedade e cooperação humana. Há também aqueles que querem o reconhecimento dos Direitos Animais, mas defendem “Direitos Humanos só para ‘humanos direitos’” – negando a possibilidade de criminosos, mesmo não hediondos, se arrependerem e mudarem – e o uso da pura força bruta policial para tratar problemas de cunho social e de saúde pública.
E já tive também o desprazer de conversar, antes da popularização do Facebook no Brasil, com um vegetariano homofóbico que odiava a esquerda, negava o Holocausto nazista e dizia que o nazi-fascismo tinha pontos positivos.
São pessoas que dizem defender a libertação animal, mas, ao mesmo tempo, negam qualquer interesse em promover a libertação humana. Para eles, explorar animais é um absurdo, mas submeter seres humanos à exploração, negar-lhes direitos e tratá-los como seres degenerados é allright.
É da mesma linha daqueles que querem a abolição da escravidão animal, mas não se importam em comprar camisas de marcas que exploram trabalho infantil e/ou semiescravo em países asiáticos. E daqueles homens que vendem lanches veganos e falam de vegetarianismo ao próximo, mas tratam com violência e autoritarismo, do alto de seu machismo, suas namoradas e esposas. E das ONGs que “defendem animais” reforçando relações de opressão sexista ao tratarem mulheres como objetos sexuais. E dos misantropos que juram que a “solução” para libertar os animais é extinguir a espécie humana.
Me pergunto: que coerência existe em defender os animais mas alienar-se da defesa dos seres humanos, que também são animais – e às vezes ir ainda mais baixo, opondo-se explicitamente àquelas(es) que lutam todos os dias pela libertação humana? Que sentido há na expressão “Libertação Animal” quando ela é usada por quem exclui moralmente os seres humanos e comete um especismo reverso, uma hierarquização de sujeitos de direito que, de qualquer forma, é errada e atenta contra os próprios princípios igualitários dos Direitos Animais?
Veg(etari)anos reaças me tentam a acreditar que o que os faz declarar respeito aos animais não é a Ética, a consideração moral legítima, a alteridade, a  empatia, mas sim a efêmera pena dos animais, a sensibilidade emocional pessoal que é mais forte ao ver animais sendo maltratados do que ao flagrar humanos sendo torturados e/ou postos em situação de miséria.
Ao mesmo tempo que criticam quem defende os Direitos Humanos mas desdenha dos Direitos Animais, colocam os DA como se fossem superiores aos DH, ao negligenciarem estes últimos através de posições contrárias, por exemplo, ao (trans)feminismo e à emancipação dos trabalhadores e de outras minorias através da militância política de esquerda.
É necessário, depois de descrever a posição contraditória dos veg(etari)anos conservadores, reiterar uma verdade que lhes é inconveniente: os Direitos Animais são uma causa de esquerda. Tem muitos elementos pertinentes à esquerda política libertária, seja ela liberal social, comunista (não confundir o comunismo, que nunca existiu de verdade nas sociedades modernas, com o socialismo autoritário do século 20!) ou anarquista, como a defesa de direitos fundamentais, o questionamento e luta pela mudança do status quo, o combate a hierarquias de consideração moral e de poder, o ideal da igualdade entre sujeitos de direito, a alteridade e empatia como princípios éticos e a regência da sociedade pelos princípios, dentre eles a Ética e a solidariedade, em detrimento dos meros interesses.
Ser libertário(?) para com os animais não humanos e ao mesmo tempo conservador para com os humanos é um contrassenso sob vários motivos. Primeiro, os Direitos Animais defendem a igualdade moral entre animais humanos e não humanos, e não a superiorização dos últimos em termos de consideração moral e merecimento de compaixão como os veg(etari)anos reacionários parecem pregar na prática.
Segundo, os seres humanos também são animais, compartilham com outras espécies os mesmos interesses inerentes à sua condição de animais, como pela vida, pela integridade física e psicológica e pela liberdade, portanto sua libertação de sistemas de exploração, de hierarquia moral e de relações opressoras de poder também é intrínseca à causa da Libertação Animal.
E terceiro, o discurso que tenta justificar o conservadorismo dessa categoria de veg(etari)anos é o mesmo que, mudando apenas alguns elementos, é usado para legitimar a exploração animal – as hierarquias morais, a naturalização de relações desiguais de poder, o tratamento das diferenças como justificadoras de desigualdades, a negação da possibilidade de mudar radicalmente o status quo, o preconceito contra o diferente, entre tantos outros. Assim sendo, a (falta de) lógica de um veg(etari)ano conservador é a mesma de um especista que se diz de esquerda.
Por isso, convém aos veg(etari)anos conservadores refletir: será que realmente desejam a libertação animal? Ou simplesmente têm pena dos animais explorados pelos humanos? Seu respeito aos animais tem mesmo fundamentação racional, baseada na Ética, na Filosofia e na Biologia, ou é simplesmente emocional, questão de não querer mais ver animais sofrendo? Qual é a lógica de ser ao mesmo tempo a favor dos Direitos Animais e contra a luta, por exemplo, pelos direitos dos LGBT e pela libertação feminina? Por que é coerente pensar igual aos especistas, defendendo exploração e agressão para uns e liberdade e integridade para outros? O que é mais coerente, estender seu anseio de libertação aos seres humanos ou seu conservadorismo para os outros animais?
Enfim, por que ser um veg(etari)ano conservador? Por que defender libertação para uns e opressão para outros? – esta última pergunta, aliás, também deve ser tema de reflexão para aqueles que se dizem de esquerda para causas humanas, mas não dão a mínima para a escravidão animal.



[1] Publicado originalmente em http://veganagente.consciencia.blog.br/libertacao-animal-sem-libertacao-humana-o-estranho-caso-dos-vegetarianos-reacionarios/

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