sexta-feira, 11 de abril de 2014

O uso político da memória

Ensaio
10 de abril de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

No dia 1º de abril deste ano, o golpe civil-militar de 1964 completou 50 anos. Como outras efemérides históricas do nosso calendário, ganhou vários seminários e debates. O grupo memória, da Pós-graduação de História, da UFPE, realizou um. O Espaço Socialista também realizou um debate público. Mas o governo do estado de Pernambuco parece ter se antecipado e juntamente com a UNICAP, o GAJOP e a Comissão da Verdade, resolveu fazer o seu na universidade jesuítica, há algumas semanas.
É sintomática a atitude de se antecipar às demais iniciativas da sociedade em rediscutir as consequências do regime militar no Brasil. Certamente, o nosso dirigente estadual tem interesse direto na reescritura desse triste evento. Primeiro, porque a família Arraes foi duramente atingida pelo golpe: o ex-governador Miguel Arraes foi deposto. Preso, teve seus direitos políticos cassados e foi exilado do país. A lembrança dos seus feitos foi conspurcada pela historiografia do regime militar. Só se pôde deles ter conhecimento através de teses, livros e autobiografias produzidas ao longo de todos esses anos. Em segundo lugar, há o interesse político do seu herdeiro em tirar dividendos eleitorais das homenagens e louvaminhas aos atingidos, sobretudo aos da família do ex-governador. A propósito, a família foi alvo de uma homenagem no início do citado encontro.
O que mais importa chamar a atenção é o uso político, estratégico da memória histórica, destinado a produzir uma hagiografia cívica que sirva aos interesses do presente, às motivações da hora, aos objetivos políticos do grupo (familiar) no poder. Neste sentido, retornamos sempre ao conceito orwelliano de História, com o seu infame departamento da memória, reescrevendo o passado de acordo com as conveniências políticas do presente. Podemos dizer como Nietzsche, Foucault e Croce: já existe história do presente, nunca do passado. A nossa visão do passado não passa de uma mera racionalização de imperativos de poder. E ponto. Não sei se esses políticos de Pernambuco operam com essa sofisticação intelectual. São pragmáticos demais. Talvez contratem alguns pesquisadores, publicitários e acadêmicos para o fazerem.
O fato é que se todo esse esforço hermenêutico sobre o golpe civil-militar de 1964 deixar de realçar a sua essência bonapartista, apoiada na histeria anticomunista das classes médias, o aumento da internacionalização da economia brasileira, a formação de um sindicalismo de ponta, uma indústria cultural moderna e a emergência de novos atores sociais, e for trocado por uma hagiografia de sinal invertido, para satisfazer interesses da hora, de nada terá valido todo esse vozerio e o ruído, a não ser para a publicação de artigos e livros, que irão rechear o currículo lattes de alguns.
Como dizia um filósofo, nada do que aconteceu está perdido para a História. Mas se permitirmos que os vencedores de outrora continuem vencendo, nem os mortos, nem os desaparecidos, nem os torturados estarão a salvo em suas sepulturas.