quarta-feira, 23 de abril de 2014

Eleições DCE UFPE: o que fazer?

Ensaio
23 de abril de 2014
Por Movimento Síntese Socialista

Nós do Síntese vimos a público expor nossa leitura do processo e explicar nossa posição durante todo ele. Em que pese o fato de não termos nos postulado como parte da composição de nenhuma das chapas que estão concorrendo ao pleito, desde o princípio fomos a favor do processo por entender a importância do DCE como instrumento de organização dos estudantes para as defesas de seus interesses e da universidade pública. Instrumento político, tanto mais quanto vivemos em uma sociedade extremamente desigual em que as diferenças de classe e aquelas determinadas pela opressão em seus diversos matizes (de gênero, sexual, racial e etc) cortam/perpassam todas as esferas da vida. Inclusive a acadêmica.

Um balanço necessário
Nossa participação no processo como agrupamento/movimento teve início bem antes da campanha começar. Durante os três meses que a antecederam - isto é, todo o período de preparação do processo eleitoral - nós do Síntese chamamos insistentemente os setores das esquerdas social e partidária para composição de uma frente anticapitalista, anti-imperialista e antigovernista para as eleições e para além dela. O chamado estava calcado em um balanço político com saldo negativo para esquerda na luta contra o capital na universidade e na necessidade (objetiva e subjetiva) de reversão da atual correlação de forças que nos é desfavorável.
Ao fim e ao cabo, a unidade não se concretizou. Inicialmente restrita a um diálogo entre as organizações da esquerda partidária que atendiam aos critérios do chamado – PSTU, PCB, PSOL e PCR – e depois ampliada aos coletivos e DA's da UFPE, a discussão emperrou devido a vários fatores. Dentre eles, destacamos a prioridade dada à autoconstrução e a confusão metodológica para constituição de unidades.
No primeiro caso, que foi uma das razões primeiras da obstrução do diálogo, entendemos que foi esta a postura adotada pelo PCB e pelo PSTU. É preciso esclarecer que não consideramos a priori como um equívoco a política de autoconstrução de toda e qualquer organização revolucionária. O que consideramos equívoca é a oposição entre autoconstrução e construção do movimento. Uma dialética complicada, que depende dos tons da luta concreta. Em nossa opinião, no momento em que foi feito o chamado, a unidade estava mais condizente com as necessidades objetivas e subjetivas da realidade local.
No segundo caso, houve confusão acerca dos meios para constituição de uma unidade. O que foi proposto desde o início pelo Síntese foi a construção de um programa comum, com eixos de defesa da laicidade e gratuidade da Universidade, bem como do seu caráter público, democrático e autônomo, a partir evidentemente da independência financeira e política frente a reitoria, a empresas e etc. No entanto, o que vimos foi a ênfase em diferenças e divergências de raízes profundas – tais como as histórico-teóricas – e mesmo problemas de relação política de passado remoto e recente como impedimentos para concretização da unidade.

Panorama das eleições
O que temos agora são cinco chapas com composições diversas concorrendo ao pleito de abril (a chapa 1, Por uma Universidade Popular, composta por PCB, Unidade Vermelha e independentes, retirou-se da disputa): a chapa 2, Inimigos do Rei, composta pelo MEPR, coletivos autonomistas e estudantes independentes; a chapa 3, Tamo aí mandando brasa, composta pelo PCR, Consulta Popular, Esquerda Marxista e estudantes independentes; a chapa 4, É Hora da Virada, composta pelo PSTU, pelo PSOL e por independentes; a chapa 5, Aquarela, composta pelo PT; e a chapa 6, Eu quero sempre mais, composta pelo PCdoB e estudantes independentes. O fato de os programas específicos serem muito semelhantes confundem os estudantes e tornam mais difícil a diferenciação entre as chapas. No entanto, é possível e necessário distingui-las seja recorrendo a elementos dos seus programas, seja recorrendo a avaliações dos seus métodos políticos e/ou das posições político-ideológicas mais gerais dos grupos que as compõem.
Tendo como base o espectro acima descrito, nos dois últimos casos, chapas 5 e 6, temos composições políticas que se alinham por uma conformidade em relação ao apoio ao governo federal. São, nesse sentido, chapas abertamente governistas (como ademais ficou claro nos debates) compostas por bases do partido do governo federal e aliados. Numa leitura mais voltada para sua localização no movimento estudantil, são a composição majoritária da União Nacional dos Estudantes (UNE) e as maiores beneficiárias do espólio das carteiras de estudantes. Estão vergonhosamente na contramão das lutas de rua que se desenvolvem no país desde o ano passado, sendo favoráveis a realização da Copa do Mundo no Brasil nos termos que foram colocados pela FIFA/Governo Dilma, com todas as implicações de despejos de comunidades, de lobby imobiliário, de repressão aos movimentos sociais para garantir esse evento, de desvinculação de verbas da União para investimento público no capital privado e etc.
A chapa 3, Tamo aí mandando brasa, composta pelo PCR, pela Consulta Popular e pela Esquerda Marxista, apresenta matizes governistas também, mas mantém em relação a esse uma postura mais crítica. É o caso da leitura que fazem por exemplo do REUNI: um apoio crítico a um projeto de reforma das IFES absolutamente questionável (e questionado!) pelo ANDES/SN e por movimentos de greve e ocupação ao longo de seus seis anos de vigoração legal.
Os grupos organizados que compõem a chapa 2, Inimigos do Rei, foram os que estiveram na ocupação da reitoria da UFPE ano passado e defenderam (ainda que não tenham aplicado praticamente) métodos de ação que consideramos equivocados, tais como a destruição de bens materiais e a supremacia da ação individual sobre o grupo (ou à revelia dele). O que na prática significou, como costuma acontecer nesses casos, a sobreposição do individual ao coletivo. Tiveram, nesse sentido, papel destacado na derrota da ocupação tal como se deu. São grupos ultra-esquerdistas, tal como o MEPR, braço estudantil da Liga Operário Camponesa (LOC). O ataque sistemático que fazem aos partidos tomados como um todo homogêneo é deseducador pois contraditoriamente possuem identidade político-partidária como membros da LOC (jornal Nova Democracia), adotam uma estrutura "leninista" de organização e possuem um programa "baseado" numa leitura enviesada do maoísmo.
Mas a chapa não é composta apenas pelo MEPR e congrega estudantes que, desacreditados com os partidos de esquerda, viram nela uma alternativa política dentro do pleito. Parece vir deles os elementos mais propositivos do programa. Independentemente disso, falta-lhes uma discussão mais sólida sobre Universidade Pública, um debate fundamentado sobre a educação pública de nível superior hoje – onde está, para onde vai –, bem como não apresentam saída plausível para os problemas que enfrentamos hoje em nossa Universidade (tal como a segurança): a consigna do Fora PM! é insuficiente, pois na prática não resolve os problema da segurança no Campus. A contratação de seguranças via concurso federal é apenas uma parte, meio caminho, para um encaminhamento mais ou menos definitivo do problema. É preciso, além disso, a exigência do controle da comunidade acadêmica sobre essa segurança através de comitês ou conselhos comunitários.
Nesse quadro, as chapas 1 e 4, compostas respectivamente por PCB, Unidade Vermelha e Independentes e PSTU, PSOL e Independentes foram as únicas que estão levantando as questões que consideramos fundamentais em um processo como esse, tais como o debate acerca da Universidade Popular, da reorganização político-sindical, das políticas do governo federal para a educação (tais como o Reuni), etc. Perante a desistência do pleito pela Chapa 1, nós do Síntese manifestamos nosso apoio político-eleitoral aos integrantes da Chapa 4 ("É hora da virada").

Um apoio crítico
Em primeiro lugar, é preciso retomar o debate sobre as linhas gerais da atuação da esquerda que se propõe revolucionária no movimento estudantil. É preciso refletir sobre o praticismo dominante no meio militante e as vias possíveis de superação do mesmo. Em certo sentido, as eleições expressam práticas não emancipatórias das esquerdas e da militância em geral. É necessário ainda rever a atuação nas estruturas, tais como os DCEs e DAs, o que significa rever práticas aparelhistas e pouco democráticas. Concebemos por exemplo uma estrutura menos hierárquica e menos vertical de organização para o DCE-UFPE.
Em segundo lugar, é preciso aprofundar o debate sobre a Universidade Pública hoje. Exceto a Chapa 1, praticamente não há nos programas das concorrentes ao pleito uma discussão/reflexão sistemática sobre o tema. Trata-se de questão fundamental em um contexto de conversão deliberada da função e da natureza da Universidade aos interesses do capital.

O pós-eleições
As eleições são um momento da reconstrução do movimento estudantil na UFPE. Independentemente de seus resultados é necessário apontar para algo maior. Como dito em outras ocasiões, nós do Síntese cremos tão necessária quanto possível uma unidade dos setores antigovernistas, anti-imperialistas e anticapitalistas da UFPE, entendidos em sentido amplo como esquerda partidária e não partidária, intelectual e social. Estamos cientes das várias divergências entre todos esses setores a que nos referimos, mas ponderamos mais uma vez o caráter delas, algumas das quais deitam raízes em eventos históricos profundos acerca dos quais não haverá acordo em curto-médio prazo (quiçá, nunca). Construir a unidade na multiplicidade, com base em um programa que tenha como referência as necessidades políticas d@s estudantes-trabalhador@s da nossa Universidade. Uma unidade que congregue os movimentos sociais de esquerda (sindical, antirracistas, culturais, MST, de gênero, LGBTT e etc), coletivos de estudantes e estudantes independentes. Com o otimismo da vontade e o pessimismo da razão! 

2 comentários:

  1. Estou aguardando as provas sobre as acusações de que militantes do Coletivo Inimigxs do Rei de que "foram os que estiveram na ocupação da reitoria da UFPE ano passado e defenderam (ainda que não tenham aplicado praticamente) métodos de ação que consideramos equivocados, tais como a destruição de bens materiais ".

    Depois se perguntam o porquê da não união, um artigo que tem 2 parágrafos criticando o coletivo unicamente, em base teórica, prática e apontando os outros grupos como apenas não apoiadores da união.

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    1. Caro Welthon,

      Algumas notas:
      i) Se voltares ao parágrafo do texto sublinhado, constatará a existência de uma precisão que você ignora em seu comentário: trata-se exatamente dos termos de abertura "os grupos organizados que compõe/apóiam a chapa 2", leia-se o MEPR/FIP;

      ii) Não se trata de uma "acusação", na medida em que tais métodos são entendidos como "tática política" por seus membros, isto é, meios adequados para alcançar seus fins estratégicos e portanto publicizados em materiais de propaganda;

      iii) A natureza do texto - de circunstância - não permite um aprofundamento na caracterização de cada um dos grupos concorrentes ao pleito;

      iv) Seria pertinente se você destacasse também o parágrafo seguinte que atenciosamente distingue a diversidade do coletivo/chapa.

      Saudações,

      Alberto Luis.

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