quinta-feira, 3 de abril de 2014

A memória escolar dos tempos ditatoriais

Ensaio[1]
03 de abril de 2014
Por Marco Mondaini, historiador e professor associado do Departamento de Serviço Social da UFPE.

Para aqueles que, como eu, viveram quando ainda eram crianças e adolescentes o regime ditatorial implementado pelo Golpe de Estado de 1º de abril de 1964, as recordações daqueles sombrios anos vinculam-se não tanto às violências físicas sofridas pelos que se opuseram ao status quo (denunciadas na sua barbaridade desde os primeiros dossiês divulgados no exterior, ainda em meio aos períodos mais tenebrosos das torturas e desaparecimentos, até o trabalho atual da Comissão Nacional da Verdade, passando pelo Projeto Brasil: Nunca Mais), mas sim, com muito mais vigor, às experiências educacionais responsáveis pela reprodução de uma mentalidade conservadora e autoritária forjada desde os longínquos tempos escravistas-coloniais.
Faço, pois, parte de uma geração que aprendeu nos bancos escolares do ensino fundamental e médio, em disciplinas pavorosas como Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira, que o Brasil era uma democracia indireta assentada em sólidos fundamentos morais e ordem cívica, capazes de levar o país a se tornar finalmente o país do futuro. Um país, diziam os meus professores de EMC e OSPB, que progredia com o respeito à ordem a fim de exemplificar o sentido da frase escrita na gloriosa bandeira nacional.
De fato, aqueles da minha geração vivenciaram ainda nos primeiros anos da vida escolar um processo que, gramscianamente, poderíamos denominar de "reforma intelectual e moral às avessas", uma "contrarreforma intelectual e moral", que reforçou culturalmente os traços mais fortemente conservadores e autoritários da sociedade brasileira, erigidos como mitos fundadores da pacífica e ordeira nação verde-amarela, como, por exemplo, o da convivência harmoniosa entre as nossas etnias, herança da miscigenação entre brancos, negros e índios.
Passados 50 anos do golpe de Estado que gerou tal estado de coisas, talvez não seja exagerado afirmar que uma boa parte das continuidades conservadoras e autoritárias que caracterizam culturalmente a sociedade brasileira contemporânea - as quais legitimam as suas profundas desigualdades e iniquidades - encontra-se vinculada aos conteúdos antidemocráticos trabalhados de maneira ininterrupta nas salas de aulas do país naquele período.
Pois bem, enquanto uma "reforma intelectual e moral" assentada nos princípios da liberdade e igualdade com respeito à diversidade - ou seja, nos princípios da democracia e dos direitos humanos - não conseguir sobrepujar o discurso da ordem reproduzido durante as duas décadas do regime de 64, as sombras da ditadura continuarão rondando as nossas cabeças, como se o passado insistisse em não passar em nosso país.




[1] Originalmente publicado em http://www.brasilpost.com.br/marco-mondaini/a-memoria-escolar-dos-tempos-ditatoriais_b_5052233.html?utm_hp_ref=brazil