quinta-feira, 13 de março de 2014

Revolução passiva e modo de vida

Resenha[1]
10 de março de 2014
Por Alberto Luis Cordeiro, militante e graduando em ciências sociais.

As experiências de transição ao socialismo no século XX, bem como as reestruturações capitalistas no governo da economia e das massas (das subjetividades), acentuadamente na segunda metade do século passado, evidenciaram problemas relativos a dominação e direção do conjunto da sociedade, fundamentais tanto para a manutenção quanto para construção de uma outra sociabilidade. À questão primeva para os marxistas revolucionários ocidentais pós-17 do “Por que perdemos?”, posta em termos gramscianos, somou-se outras não menos fundamentais: “Por que obedecem os que deviam recusar?” e “Como dominam os que dominam?”. Parte importante da sociologia crítica e da cultura voltou-se para essas questões ou resvalou inevitavelmente nelas (Williams, Thompson, Bourdieu, Boltanski, Chiapello, Therborn, dentre outros).
Em revolução passiva e modo de vida: ensaios sobre as classes subalternas, o capitalismo e sua hegemonia (São Paulo, Sundermann, 2012), Edmundo Fernandes Dias se lançou – e nos lança – ao desafio de repensar o capitalismo contemporâneo, suas formas de dominação e as estratégias de superação da condição de subalternidade por ele imposta. Retoma e atualiza as questões especulares acima com vistas a especificar os processos através dos quais “[...] o modo de vida materializa a passagem das macroestruturas (relações capital-trabalho na sua forma mais abstrata) às microrrelações (o cotidiano das classes)” (DIAS, 2012, p.51). Condição sine qua non para o sucesso no solo granítico da política – o terreno da virtú e da fortuna – onde tão somente o programa e o conhecimento das forças em luta é insuficiente para pôr em movimento as classes subalternas.
A obra, cuja fortuna crítica até agora se revelou aquém da sua real importância, é composta por 27 ensaios que versam sobre questões que vão desde as relações capital-trabalho até a vida cotidiana, perpassando reflexões conceituais e sobre fenômenos históricos precisos. Ao contrário do corrente, o autor enfrentou temas atuais do debate político e teórico, como o neoliberalismo, a crise capitalista em curso, o movimento manicomial e os subaltern studies, inserindo-se definitivamente no seleto grupo da crítica marxista disposta e capaz de pensar o seu tempo sem os subterfúgios característicos de uma lógica analógica e do recurso fácil aos chavões categoriais (de que são exemplos, no primeiro caso, as referências a-históricas, sobretudo, a experiência russa tomada como modelo fixo de revolução e arsenal infinito de experiências; e, no segundo caso, as explicações de tipo categoriais que passam automaticamente do nível do conceito ao da realidade, sem mediações, enquadrando a última em uma espécie de  leito de Procusto).

Cotidianidade e modo de vida
Sem descuidar-se dela, Edmundo Fernandes partiu da constatação de que as classes sociais não se caracterizam apenas pela lógica do capital, o que significa dentre outras coisas que suas determinações não se esgotam nos macrocampos da economia e da política. Às abstrações muitas vezes indeterminadas do proletariado, do camponês, do burguês e etc., Gramsci frequentemente evocava as individualidades de homens e mulheres. Com isso, abriu a possibilidade de transpor o fosso entre as classes e os seres que a constituem, fundamental para uma política que se pretenda efetiva. Nessa perspectiva, tematizar os subalternos – entendidos por Dias como “aqueles que estão desprovidos de discurso próprio, isto é, de programa autônomo de classe” (p.12) – equivale a tematizar a sua história vivida, compreendê-los em suas práticas e ao mesmo tempo explicitar as raízes profundas da dominação.
A noção de modo de vida surge aqui como fundamental para compreensão da passagem entre as macrodeterminações do modo de produção às microrrelações entre os indivíduos. Por modo de vida entende o autor as “formas de produzir e de consumir bens, valores, formas de pensar” (p.13), que se “traduzem em formas de dominação e subalternização” (p.51). Apresenta-se como uma alternativa à dicotomia paralisante entre essas esferas, quase sempre reificadas. Edmundo propõe com isso uma análise que seja ao mesmo tempo macro e micro, sob pena de “perder-se de vista a história mesma como laboratório da luta e da teoria” (p.13).
Revela-se a influência, ademais explicitada pelo autor, de Leon Trotski e Antonio Gramsci. Foram eles os primeiros a se ocuparem dos problemas relativos ao modo de vida e a vida cotidiana, isto é, os “processos hegemônicos pelos quais os subalternos pensam, agem, sentem e vivem no interior do modo de vida dos dominantes, de suas normas e instituições” (p.133). Foi em uma brochura de Trotski[2], escrita e publicada ainda nos anos 1920, que essas preocupações vieram à tona a partir de questões muito particulares suscitadas pela realidade de uma Rússia pós-revolucionária: a relação entre as mudanças econômicas e a consciência das massas, os ritmos da transformação de cada uma no processo de transição ao socialismo, a dialética entre reformas de cima para baixo e de revoluções de baixo para cima.
O eco das preocupações de Trotski se fez sentir nos anos 30 em Gramsci, em escritos dispersos nos seus Cadernos do Cárcere (sobretudo em Americanismo e Fordismo). As questões aventadas pelo primeiro são ampliadas e aprofundadas pelo segundo. À preocupação com a linguagem, por exemplo, um dos loci da hegemonia – que Trotski tematiza apontando a necessidade da sua depuração e conclamando a militância à luta pela expugnação dos seus elementos opressores que deitam raízes profundas no psiquismo do homem russo, mas também no seu passado servil – Gramsci aponta como condição para os subalternos autonomizarem-se da fala dos dominantes, a criação de sua própria linguagem.
O que está em jogo é a necessidade de liberação dos subalternos do jugo do bloco dominante que não se esgota, muito menos se sustenta, apenas no domínio econômico. Ao contrário, enraíza-se nos costumes, hábitos e saberes dominantes, afirmando-se como horizonte ideológico dentro do qual as classes subalternas produzem e reproduzem suas vidas. Em outras palavras, “é no cotidiano que as formas de vida dos dominantes são passadas para os dominados como as únicas formas possíveis de pensar, agir, sentir, elaborar conhecimentos e estratégias” (p.318).
Edmundo Fernandes pensou esses processos desde uma perspectiva revolucionária, não sucumbindo, portanto, a tentadora reificação do mundo cotidiano das classes trabalhadoras. Trouxe à luz análises esclarecedoras dos mecanismos de subjetivação através, por exemplo, do que considera o mais brutal aparelho de hegemonia, a TV: no seu trato da dialética necessidade-desejo, realçam-se os desejos e recalcam-se as necessidades. Conformando com isso as classes trabalhadoras ao horizonte subjetivo dos dominantes.

Revolução passiva e neoliberalismo
A força do pensamento de Edmundo Dias está, sobretudo, em um dos pontos altos do livro: a sua preocupação com o presente histórico, o tempo atual das conjunturas que atualizam as estruturas (o tempo como kairós), expressa na sua análise do neoliberalismo. Sua preocupação reside na compreensão dos novos modos de vida que conformam os processos contemporâneos de revolução passiva.
O neoliberalismo, momento atual do capitalismo, atuou e atua no seu processo de formação e conformação em dois sentidos principais e interligados: a deslegitimação do projeto comunista e a liberação das relações mercantis de todos os embargos a seu pleno desenvolvimento (desde o esforço por destruir as leis de proteção ao trabalho às formas de subalternização via educação formal, passando pelas reformas constitucionais, previdenciárias e etc.). Sobretudo a partir da Inglaterra e dos Estados Unidos, trata-se de um verdadeiro “processo de colonização mental, com vistas a dotar o mundo de categorias de percepção homólogas às suas estruturas sociais” (p.281). O silenciamento dos subalternos aparece aqui em sua forma avançada.
Dias nos mostra como para ser aceito o neoliberalismo naturalizou e culpabilizou a pobreza e negou a história. Tudo isso, por meio de uma construção ideológica levada a cabo por “zeladores do Novo Estado Neoliberal” (p.290) – ideólogos cujo trabalho muitas vezes construído a partir de instituições pseudo-acadêmicas, não possui o mínimo de embasamento científico. Como resultante, temos a culpabilização dos pobres pela situação em que vivem e a sua eliminação da vida política seja através do recrutamento a asilos, abrigos e cadeias seja pela captura da sua subjetividade. A solução capitalista/neoliberal passa aqui necessariamente pelo incremento da barbárie.
Na escalada de reestruturação da economia e das subjetividades o empreendimento neoliberal tem na educação uma peça fundamental. Regida pela lógica neoliberal, a escola é instrumentalizada a um nível extremo pelos interesses do capital que passou a impor em todos os níveis um modelo de educação inicialmente exigido apenas pelas escolas técnicas e profissionalizantes. Como consequência, temos o terceiro grau contaminado pela ideologia do individualismo pós-moderno e a universidade acossada pelo produtivismo e pela falta de recursos.

Pedagogos
Revolução Passiva e modo de vida é um livro sob muitos aspectos urgente e necessário, dadas as condições da luta de classes no tempo presente. Contudo, guarda algo de uma temporalidade futura, no que faz pensá-lo como plenamente reconhecível apenas por uma militância do pôr-vir. O próprio autor a ele se refere na apresentação como “instrumento de capacitação dos militantes do futuro” (p.11). As preocupações e problemas por ele alinhavados, bem como o tratamento absolutamente idiossincrático da maior parte das questões levantadas, são reveladores.
Das linhas do último livro saído da pena de Edmundo Fernandes confirma-se a vocação de quem escreve como ensina e de quem ensina como educa. O livro possui um caráter pedagógico, uma aula de grande política. Com Muhammad Ali, nos aconselha a bailar no tablado da luta de classes, pois alvo fixo é sempre vulnerável. Contra o praticismo revolucionário nos aconselha a ligação estreita entre pesquisa e trabalho-político. Trata-se enfim de um παιδαγωγός (pedagogos) no sentido conferido pelos gregos ao termo: isto é, aquele que educa ao mesmo tempo em que ensina.




[1]Originalmente publicada no Blog Convergência: http://blogconvergencia.org/blogconvergencia/

[2] Publicada em espanhol com o título Problemas de la vida cotidiana, Cuadernos de Pasado y Presente, nº 27, Córdoba. Em português, com o título Questões do modo de vida, Editora José Luiz e Rosa Sundermann, 2012.