segunda-feira, 10 de março de 2014

A fúria e o som ao redor

Resenha
06 de março de 2014
Por Renato Kleibson Silva, mestrando em sociologia pela UFRN.

O som ao redor, filme escrito e dirigido pelo crítico de cinema pernambucano Kleber Mendonça Filho representa o zênite do cinema de retomada pernambucano que começou em 1997 com Baile perfumado (o longa que também é conhecido como o filme da geração Manguebeat). É dirigido por Paulo Caldas e Lírio Ferreira e roteirizado por Paulo Caldas, Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, alguns nomes da geração que fez a retomada do cinema pernambucano, junto com Cláudio Assis e Marcelo Gomes. Porém, apesar de ter a mesma faixa etária destes diretores, Kléber Mendonça não se sente filiado a esta geração, eminentemente, da retomada. A sua geração é mais nova, e ele, em ampla medida, é o “guru” desta nova safra de diretores/roteiristas/fotógrafos que assim intitulam-se como diretores/produtores de um cinema de cunho mais “autoral”, apostando em novas experiências de linguagens fílmicas. Entre eles podemos destacar Daniel Aragão, Marcelo Lordello, Gabriel Mascaro entre outros.
         Neste sentido, O som ao redor é o ponto culminante da retomada pernambucana, pois ele já aponta novos contornos para a linguagem fílmica daquele Estado e também é atravessado por novos canais de incentivo ao audiovisual, além das novas mídias digitais e da internet que se encontram presentes no tripé ‘produção, distribuição e exibição’ do que está sendo produzido no Estado em geral e, em Recife, no particular.
         Alguns fatores determinantes para tentar compreender este novo caminho em que está se dirigindo o cinema pernambucano, do qual eu chamo de pós-retomada, é analisarmos o papel central de Mendonça Filho neste processo, pois além de ter dirigido vários curtas metragens no início do milênio e ter feito um longa (documental) que durou oito anos – Crítico. E depois do retumbante sucesso de Recife frio, que em alguma medida aponta para o que virá em O som ao redor, vemos um diretor que, além de produtor e crítico, é um agitador cultural na cena do Recife. Ele é um dos organizadores do Festival Janela Internacional de Cinema do Recife que já se encontra em sua 5ª edição e também é responsável pela equipe de cinema do Cinema da Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) há mais de 15 anos. Através deste trabalho, ele conseguiu ampliar o público do Cinema da FUNDAJ, melhorar as instalações e fornecer ao público uma programação fílmica cosmopolita. Tudo isso nos indica o seu papel de “guru” desta nova geração de diretores, haja vista ser ele o “criador” das novas leis do campo audiovisual recifense, através de cursos, empréstimo de equipamentos aos novos diretores/produtores, conselhos e dicas.
         O curta metragem Recife frio já nos aponta, através de sua “malvada” alegoria, pois a elite brasileira e, em particular, a pernambucana, sempre sonhou com um clima temperado. Neste trabalho, já percebemos um diretor delineando um “sintoma” que já é manifesto na cidade do Recife. Através da alegoria da mudança climática, podemos ver como a estrutura social é “reaclimatada” para condicionar e reproduzir a histórica desigualdade social da cidade – a estrutura social é estruturante e estruturada –, ou seja, mesmo na hipotética situação da queda dos termômetros em uma cidade tropical, a empregada doméstica (negra) continua sendo explorada. Neste curta, uma passagem é esclarecedora desse “sintoma”. Do seu quarto nos fundos (misto de senzala sob os auspícios da CLT e dos projetos arquitetônicos Frankenstein) a empregada negra é expropriada do seu “cantinho” pelo filho da patroa que a obriga a trocar de quarto com ele, pois o seu está recebendo todas as rajadas de vento frio vindo do mar de Boa Viagem (bairro da classe média alta recifense). E é nesse bairro, que possui um dos terrenos mais caros do Brasil, que será ambientado o primeiro longa ficcional de Kléber Mendonça Filho.
É em Setúbal, espécie de batismo cornubático para manter a distinção espacial, pois Setúbal não é Boa Viagem – “Perto do mar, longe da cruz”. Que o longa foi rodado, especificamente em uma rua, a Rua do “seu” Francisco (nome irônico, haja vista o filme começar com algumas imagens de arquivo, cuja a primeira nos remete as Ligas Camponesas que vicejou no interior do estado pernambucano, sobretudo, através da figura de Francisco Julião). Ele é uma personagem oriunda da decadência da zona açucareira da mata pernambucana, mas que ainda mantem o seu Engenho e continua a espoliar os moradores da região e decide fazer o mesmo no litoral, em um bairro que virou a síntese da “Caosmópole” –sons de bate estaca, britoneiras, carrinhos vendendo CDs e DVDs pirata, cachorro latindo, alarmes de carros sendo arrombados etc. O que se destaca no filme e que me fez lembrar de chofre o longa de Roman Polanski Repulsa ao sexo, é o ritmo sonoro que o filme tem. Sempre há algum objeto soando ritmicamente, como se fosse o mantra do ethos de uma classe média nervosa, assustada, preconceituosa e, acima de tudo, recalcada através de seus Unos (carro da Fiat) branco, suas “trepadas” na cama do patrão, seus fetiches mercadológicos e seus vícios de última hora.
Neste diapasão, o filme me fez lembrar da série de TV norte-americana Twin Peaks, dirigida por David Lynch. Tanto na série quanto no longa pernambucano, está ambientado um thriller (suspense); naquela, pela morte de uma jovem e neste por um assunto pendente entre duas famílias, mas o verdadeiro ponto de convergência esta em que, em ambas produções, as personagens tem o hábito de jogar a sujeira embaixo do tapete – seja através da barganha pelo preço de um imóvel cujo expediente é o suicídio de uma moradora, seja através das aulas de mandarim, seja por uma reunião de condomínio para decidir a demissão do porteiro justificada por um vídeo.
O som ao redor é um filme denúncia, mas não com as armas habituais do jargão político. É denuncia com o olhar e com o som, poética ocular, espacial, rítmica. Não devemos nos esquecer que é a Boa Viagem de Kléber Mendonça que também está na tela, não mimeticamente, mas poeticamente. O filme, através do olhar do diretor, revirou a sujeira sob o tapete de sua aldeia e, com isso atingiu o universal. É denúncia de um bairro, de uma cidade que cresce vertical e economicamente, mas que mantem a sua estrutural desigualdade, subindo cada vez mais e as pessoas querendo buscar cada vez mais também o seu lugar ao sol em uma espécie de Babel onde não há comunicação possível, branco é no branco e preto é no preto ao som do bate estaca ao redor: Everybody is filhos de God; Só não falamos as mesmas línguas.