segunda-feira, 10 de março de 2014

Porque não teremos uma Frente de esquerda entre PCB, PSOL e PSTU?

Ensaio
09 de março de 2014
Por René Cortez, trabalhador e ativista social.

Aos poucos as movimentações do PCB, PSOL e PSTU indicam que nas eleições de outubro de 2014 a esquerda socialista brasileira mais uma vez se dispersará em varias candidaturas próprias e não conformará uma frente de esquerda nacional.
Na atual conjuntura que vive o Brasil, a frente de esquerda seria uma importante tática dos revolucionários para com um mesmo programa e com uma mesma candidatura apresentar uma alternativa eleitoral para os diferentes setores explorados e oprimidos que estão em luta em nossa sociedade.
Vários são os motivos apresentados pelos partidos (PCB, PSOL e PSTU) para não conformar uma unidade para as eleições em 2014. Neste ensaio continuo a entender que a frente de esquerda tem em base: um programa de defesa das bandeiras históricas da classe trabalhadora, um programa anticapitalista e de independência financeira das candidaturas. Essa continua sendo a melhor tática para as eleições 2014. Contudo, é muito difícil haver nacionalmente um acordo entre esses partidos. Sendo assim, o PCB lançou como pré-candidato Mauro Iasi; o PSOL lançou Randolfe Rodrigues e o PSTU, Zé Maria de Almeida.
Este é o segundo ensaio sobre as eleições que publico no blogsintese, o primeiro com o titulo “Randolfe Rodrigues: um nome que inviabiliza a frente de esquerda para eleições de 2014” discorre sobre as contradições internas do PSOL e os problemas sobre o nome de Randolfe como candidato majoritário do PSOL.
Em outubro de 2014 tudo indica que mais uma vez veremos os três principais partidos legalizados da esquerda socialista do Brasil cada um em seu lado, cada um apresentando suas figuras públicas e cada um disputando as pequenas bases eleitorais que a esquerda dispõe. Preferem ter como norte uma linha auto-proclamatória do que criar um amplo campo de forças com as varias organizações, ativistas e militantes socialistas. O fato é que possivelmente a frente de esquerda não se constituirá.

PSOL e a velha política petista
A aprovação de Randolfe Rodrigues como pré-candidato do PSOL à presidência é a sintetização do mesmo projeto político partidário que o PT adotou, ou seja, a acomodação ao regime democrático burguês considerado como objetivo central da estratégia do partido, e a luta por mais espaço na institucionalidade tornando, portanto, as eleições a dimensão prioritária.
Randolfe é senador do Amapá e foi eleito em 2010 com 202 mil votos numa coligação do PSOL com PTB, PPS, PSDC, PRP, PTC e PMN. Esses dois últimos (PTC e PMN) fazem parte da reacionária base evangélica. Em 2012, Randolfe elegeu o prefeito de Macapá (Clécio Luís) reeditando a aliança de direita que reuniu PCB, PPS, PRTB, PMN, PTC e PV, com o apoio do DEM. No mesmo ano, Randolfe fez campanha na TV para o PT no Acre.
No campo da democracia burguesa essa “flexibilização” de alianças que Randolfe aplicou no Amapá, inclusive com partidos da burguesia, são necessárias para quem tem pretensões de fazer parte do regime democrático burguês. O que Randolfe e os setores do campo majoritário do PSOL fazem é aplicar a mesma formulação estratégica do PT. Ou seja, para alcançar mais espaço no estado democrático burguês deve-se submeter cada vez mais às regras da ordem capitalista, fazendo assim alianças e recebendo dinheiro da burguesia.
No caso do PT, ele se converteu no contrário de seu projeto original, desenvolvendo toda sua força nos limites do regime democrático burguês, inclusive se comprometendo em aperfeiçoar tal regime. Neste mesmo trajeto caminha Randolfe e o campo majoritário do PSOL.

Capitulação do MES/PSOL
Recentemente o Movimento Esquerda Socialista (MES) aceitou a vaga para vice-presidente de Randolfe Rodrigues. O MES será representado por Luciana Genro, legitimando, portanto, o recente e fraudulento congresso do PSOL. Podemos considerar a postura do MES como uma verdadeira lição de como capitular inclusive sem questionar a política de alianças defendida por Randolfe.
A postura do MES de romper com o Bloco de Esquerda do PSOL, enfraquece-o ainda mais e fortalece o setor da direita do PSOL. Esta aliança vai de encontro ao objetivo estratégico do Bloco de Esquerda que é a recuperação do PSOL para o projeto original de sua fundação, projeto antagônico ao que Randolfe e a Unidade Socialista (US) defendem.
Outro ponto importante a destacar é que nome de Randolfe foi questionado pela maioria da base do PSOL que se posicionou por prévias no partido. O próprio estatuto do PSOL determina que a convenção eleitoral nacional e não o congresso do partido defina suas candidaturas. Depois de o MES garantir-se com a vaga de vice-presidente ao lado de Randolfe, não publicou uma linha qualquer sobre a frente de esquerda. A postura do MES é um fator que dificulta ainda mais a frente de esquerda.

Quer o PSTU uma frente de esquerda?
É absolutamente justo que o PSTU ou qualquer outro partido legal da esquerda socialista lance candidatura própria. O fato é que o PSTU até o momento joga pouco peso na construção da Frente de esquerda, não existe agitação em torno da unidade da esquerda, não há eventos, encontros ou plenárias unificadas puxadas pelo PSTU para debater o programa da frente.
A pré-candidatura de Zé Maria, de maneira alguma exclui o PSTU de ser mais ofensivo no chamado a Frente de esquerda. Pelo contrario. Zé Maria poderia cumprir um papel decisivo na construção de uma Frente de esquerda. Contudo, o PSTU limita-se a fazer tímidas notas pela conformação da frente, fazendo crer que o partido não quer esta frente e o chamado que faz é meramente formal.
Se é verdade que o PSTU quer mesmo esta Frente, então que se construa com os ativistas, intelectuais, militantes e organizações de esquerda um encontro nacional que reúna todos os setores da vanguarda que queira discutir o programa e as melhores candidaturas para as eleições. Inclusive com Zé Maria sendo o principal porta voz deste encontro. Faz-se necessário um honesto e verdadeiro trabalho para se conformar a Frente de esquerda.
Em nota publicada pela direção nacional no dia 25 de fevereiro de 2014, o PSTU diz que “foi realizada recentemente uma reunião entre dirigentes do PSTU e do PSOL para debater a proposta de constituição de uma Frente de esquerda envolvendo estes dois partidos e o PCB”. Porém, “no debate feito foram identificadas visões distintas acerca do programa e do perfil político que a frente apresentaria nas eleições” (http://www.pstu.org.br/node/20376).
Reuniões como estas são importantes, mas o PSTU e o PSOL acabam reproduzindo os mesmos métodos dos partidos burgueses, ou seja, com reuniões e decisões realizadas em gabinetes pela cúpula. Penso que o método deve ser o contrário. É preciso ter democracia na construção da Frente de esquerda. Portanto, é necessário criar formas que permitam aos ativistas sindicais, populares e estudantis participar, debater, construir e votar. Um encontro nacional seria a melhor ferramenta para materializar isto.
Tomemos como exemplo a Argentina onde se constituiu um pólo que se armou a partir do chamado do PO e PTS. Ver o editorial do Síntese de 30/11/2013 - As lições que vem da Argentina: unidade dos marxistas revolucionários também para ocupar o espaço parlamentar.

Não a fragmentação da esquerda: construir a unidade nas eleições
As eleições são um momento importante da vida política de uma cidade e de um Estado. Entretanto, não é o momento único, não é o fim de tudo. Sabemos que a participação política popular é construída cotidianamente para além dos períodos eleitorais. Não quer dizer isso que devemos negar as eleições ou o parlamento. Para os revolucionários, a participação nas eleições burguesas é uma tarefa condicionada aos nossos objetivos estratégicos. Participamos das eleições para agitar um programa anti-imperialista, operário e popular, utilizando o espaço eleitoral burguês para fortalecer as posições da classe trabalhadora.

A divisão das esquerdas nas eleições inevitavelmente dispersará a vanguarda, contribuindo desta forma para a ofensiva da frente popular sobre a juventude e a classe trabalhadora. Isso é um aspecto muito negativo da não constituição de uma frente de esquerda. Randolfe sem dúvida é um nome muito questionado entre os lutadores e lutadoras que estão nas ruas. Por outro lado, a política auto-proclamatória do PSTU em nada ajuda para que esta unidade saia.