segunda-feira, 10 de março de 2014

A vida e a morte de Sérgio Guerra

Ensaio
09 de março de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

Conheci o deputado Sérgio Guerra, por indicação de seu nome para um debate na UFPE, por uma colega de universidade que tinha integrado o secretariado do segundo governo Arraes. Um assessor de Armando Monteiro Neto tinha me contatado para que organizasse um debate público com Armando Monteiro, que estava querendo se candidatar a deputado federal. Respondi que só o faria com outro parlamentar com uma visão distinta da do candidato. O escolhido foi Sérgio Guerra, então apontado como um deputado do PSB muito preparado e muito competente em assuntos econômicos. O debate foi muito interessante, embora tivesse pouca gente.
Naquela época, Sérgio Guerra ainda estava ligado ao Governo Arraes. Tinha sido seu secretário por duas vezes e nas discussões em que participava, sempre defendia o legado político e administrativo de seu ex-chefe político. Voltei a me comunicar com ele, em outras ocasiões, para a sua participação em outros debates (SUDENE, política regional de desenvolvimento, globalização, etc). Nunca deixou de atender aos meus convites, ao contrário de outros parlamentares pernambucanos. A característica que mais me chamou a atenção da vibrante personalidade do ex-parlamentar era a sua versatilidade política. Do mesmo jeito que vi e ouvi Guerra defendendo a herança política de Miguel Arraes, vi depois ele se aliar com a maior tranquilidade do mundo aos adversários políticos do ex-governador. E arrastar consigo vários prefeitos e chefes políticos do interior para o lado dos novos aliados. Esta capacidade de mudar de um lado para outro, sem mais, que o crítico Antonio Candido chamou de dialética da malandragem ou da ambiguidade, fez do ex-presidente do PSDB o "dono" da legenda em Pernambuco. Dizia-se que ele carregava no bolso o diretório provisório do partido em nosso estado porque isto facilitava as negociações com A, B, C (...). A personalização da legenda era tão grande que o PSDB era Sérgio Guerra e vice-versa.
Outro traço notável era a ambição política de ex-deputado e ex-senador. A vida inteira ele nunca escondeu que gostaria de ter ocupado um cargo majoritário: prefeito, governador (...). Mas os aliados de ocasião conhecendo o tamanho da ambição do deputado e sua astúcia de velha raposa política, nunca deram a menor chance dele postular o cargo. Guerra era conhecido como um verdadeiro trator quando se tratava de alcançar seus objetivos. Não se detinha diante de nada, de nenhuma lealdade ou compromisso. Numa engenharia típica dos políticos de São Paulo, escolheram-no para presidir o PSDB, como já tinham feito com o nome do ex-senador Marco Maciel. Reina, mas não governa. Há de se lembrar que as pretensões políticas do patronato nordestino - mesmo com o verniz de moderno - ao cargo de presidente dentro do PSDB, foram sistematicamente negadas pelos paulistas. Nem o nome de Aécio Neves era aceito. Mas a manobra da escolha de um nome do NE para presidência do PSDB servia como uma luva para barrar tais pretensões.
         A vaidade, sobretudo a vaidade de ser rico, muito rico, constrangia amigos e aliados. Ouvi da boca de um ex-secretário de planejamento do velho Arraes, que Guerra se jactava de usar sapatos de couro importados e de ostentar um alto padrão de vida. Há o episódio da CPI dos anões do Orçamento que chamuscou alguns parlamentares da região. Mas me dispenso de falar desse assunto.
De toda maneira, a morte de Sérgio Guerra deixa sem interlocutor confiável no PSDB o atual governador do Estado, de quem era amigo de longa data. E enfraquece a candidatura de Aécio Neves em todo norte-nordeste. O político do PSDB nordestino de maior prestígio e que podia sim ajudar essa candidatura era a pessoa de Sérgio Guerra. Sua morte dificulta a "venda" da candidatura do político mineiro no Norte-nordeste e amplia a vantagem de outras candidaturas.