segunda-feira, 31 de março de 2014

A ritualização da memória

Ensaio
31 de março de 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

A semana foi pródiga em comemoração. Dizia Theodor Adorno que toda tentativa de compreender e explicar os eventos passados era uma forma de justificação. Há coisas injustificáveis e indizíveis e que, portanto, devem permanecer como estão. Tal como uma ferida que não cicatriza e que sangra a vida toda. É esta a sensação que se tem dos crimes cometidos contra a humanidade e à dignidade da pessoa humana. A expressão "passar a limpo" ou "ajustar as contas" com o passado pode muito bem ser uma forma de exorcismo dos demônios e assombrações que povoam a mente de quem sobreviveu à catástrofe, ao genocídio, ao assassinato e a tortura praticada por agentes do Estado contra parentes, amigos e cidadãos comuns. Mas isso é notoriamente insuficiente quando se trata do ponto de vista da história e da sociedade onde e quando ocorreram esses eventos. A preocupação legítima seria a de não transformar essa necessária e indispensável anamnesis histórica numa comemoração familiar ou em autopromoção político-eleitoral. Mas grave ainda quando está em jogo o dinheiro público, pago pelo contribuinte, que já suporta uma carga tributária pela hora da morte. Indenizar crianças, cujos pais foram vítima do arbítrio e que em vida receberam compensações pela violência institucional cometida contra eles, é uma "ação em família", enquanto a viúva do operário Manoel Fiel Filho, assassinado no DOI-CODI, em São Paulo, recebe a pensão de um salário ou pouco mais de um salário.
Já não bastasse a autopromoção familiar, a propósito da rememoração dos trágicos acontecimentos de 1964, que muitas famílias não tão privilegiadas assim reclamam até hoje para saber onde estão seus familiares "desaparecidos", para enterrá-los condignamente e dormirem em paz, temos de presenciar o festim - celebrado em parceria com ONGs chapa-branca e uma universidade jesuíta - para convidados especiais, trazidos a peso de ouro do exterior e de outros cantos do país, regado a "coffee break" e farta distribuição de material impresso, em papel couché e capa dura entregues aos inscritos e participantes do convescote.
É o caso de se perguntar: qual é o sentido dessa celebração ritualística sobre os 50 anos do golpe militar? É entendê-lo, exorcizar os fantasmas do passado e apontar responsabilidades pelos crimes cometidos contra os direitos humanos ou transformá-lo em mais uma efeméride comemorativa, destinada a gerar mais publicações, mais repercussão midiática e dividendos eleitorais para aqueles que se julgam herdeiros das vitimas? Essa celebração mórbida, ruidosa e cara serve a tudo, menos à salvação da memória dos vencidos; que deve sim se resgatada numa ordem de luta, de indignação, de resistência e de protesto. Se não formos capazes disso, é melhor silenciar sobre o passado. É o mínimo respeito que espera a memória dos que ainda hoje clamam por justiça.