segunda-feira, 31 de março de 2014

1964-2014: bodas de enxofre e a corrosão da vida

Ensaio | Poesia
31 de março de 2014
Por Edelson Albuquerque, professor e militante social

- Em nome do pai, da pátria, da segurança, da ordem:
- provei o sabor do sangue;
- fui atirado no fundo dos porões, das viaturas;
- desconheci mães, irmãos, primos...;
- impediram-me de acompanhar o nascimento de meu filho;
- Em nome do pai, senti a tortura na pele e na alma;
- Em nome da pátria, adiei um sorriso, um beijo, um abraço;
- Em nome da segurança, não pude me despedir, um até breve;
- Em nome da ordem, escondi o rosto, camuflei identidades;

- Em nome do pai, da pátria, da segurança, da ordem:
- colhi frutos indigestos;
- acumulei lágrimas que inundavam sonhos;
- perambulei sem as próprias pernas;
- fui acorrentado e exposto como um troféu;
- Em nome do pai, levei choques que me transportavam para o horizonte;
- Em nome da pátria, perdi unhas, cabelos, fertilidade, fígado, pulmão...;
- Em nome da segurança, puseram-me em uma vala de dois palmos;
- Em nome da ordem, entendi com a bala perfura os ossos;

- Em nome do pai, da pátria, da segurança, da ordem...