quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Uma revolução às avessas

Ensaio
18 fevereiro de 2014.
Por Leal de Campos, Militante socialista e ex-preso político.

Há 35 anos, em Fevereiro de 1979, quase dez anos antes da “queda do Muro de Berlim”, o Irã foi sacudido por uma inusitada e memorável insurreição popular encabeçada pelos aiatolás, contra o regime autocrático do Xá Reza Pahlevi.
No início e em meados do século passado, triunfaram revoluções consideradas “socialistas” na Rússia, China e Cuba. E nos anos 50/70, por toda a África, Indochina e América Latina, agrupamentos armados guerrilheiros se sublevaram contra colonizadores, latifundiários e governos conservadores, numa vasta onda revolucionária nacionalista. Diante deste quadro marcado por rebeliões e agitações recorrentes, apesar de todos os entraves impostos pela burocracia soviética, muitos acreditavam até então num vigoroso processo de ascensão contínuo e permanente dos movimentos de massas e, consequentemente, na vitória do socialismo em vários países.
Mas, não foi o que aconteceu. Então, indagamos: como foi possível que o fundamentalismo islâmico (seja sunita ou xiita), movido por suas “guerras santas” aos governos árabes influenciados pela cultura ocidental, tendo por suporte as leis da Sharia, tenha conseguido unificar um país com base num regime teocrático? Em um governo islâmico de amplitude nacional?
Bom, uma das chaves para substanciar as revoltas que viraram uma revolução no Irã foi - além da fortíssima rejeição ao perdulário Xá - um ódio explícito aos Estados Unidos (EUA) como o “principal responsável” pelas desgraças do povo iraniano, assertiva esta alimentada pela pregação levada adiante por clérigos mulçumanos que atuavam na oposição. Fora o “imperialismo ianque” era uma das bandeiras dos insurgentes na capital Tearã e por todos os recantos do país.
Antes, em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra e a União Soviética invadiram aquele país com o objetivo de assegurar para si próprios os recursos petrolíferos ali existentes. Logo depois, países aliados forçaram o  (pai) Reza Pahlevi a abdicar em favor de seu filho, Mohammad Reza Pahlevi, em quem enxergavam um governante que lhes seria mais favorável. Em 1953, após a nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company, um conflito entre o monarca e o seu primeiro-ministro, Mohammed Mossadegh, levou à deposição e prisão deste último, fortalecendo o poder autocrático do primeiro. Posteriormente, os EUA passaram a influenciar o novo Xá.
Dito isso, em linhas gerais, cabem outras perguntas: por que não foi possível um avanço das proposições socialistas e comunistas no território iraniano, inclusive liderando todo o processo político de mudanças que se fazia necessário? E, neste mesmo sentido, por que também essas propostas não se firmaram no mundo árabe? Por que as ideias marxistas não prosperaram frente ao Alcorão? Ora, isto é uma coisa que nos faz pensar sobre as distorções da ideologia stalinista, que viria a deturpar concepções revolucionárias em todas as partes do mundo e a levar a esquerda a cometer sérios equívocos.
A celebração do 35º aniversário da “Revolução Islâmica” expõe mais uma vez um racha entre setores políticos rivais - conservadores e ultraconservadores - acerca das negociações nucleares e da reaproximação com os Estados Unidos e principais governos europeus. Nada que mude o cenário de retrocesso político-ideológico do regime teocrático islâmico em vigor, no qual as mulheres ainda são submetidas a leis retrógadas e até punidas ao se expressarem como pessoas emancipadas.
Não obstante, dizem alguns defensores do atual regime que “há 35 anos o Irã era um país empobrecido, com porcentagens de mortandade infantil entre as maiores do mundo. Não construía aviões, nem tanques e não tinha posto satélites em órbita". Entretanto, isso era uma questão gerada pelo governo autocrata iraniano que promoveu, exclusivamente, uma “modernização” conservadora e permitiu que a corrupção se consolidasse em todos os níveis, favorecendo principalmente os seus aliados políticos internos, aos quais não interessavam nenhuma alteração do “status quo”. E, para promover uma transformação radical do país, somente os aiatolás poderiam fazer frente à gestão despótica do Xá naquele momento, expressando-se como uma oposição organizada que tinha por trás de si o domínio religioso do Islamismo sobre a maioria população tanto nos meios rurais como nos centros urbanos. Um ganho real para todos os segmentos reacionários e antidemocráticos.
De outro lado, quem saiu perdendo foram os ideais socialistas, em busca de um novo mundo, o que nos leva a concluir que ainda persiste até os dias de hoje uma forte influência do stalinismo como uma corrente política contrarrevolucionária latente, depois de mais de 90 anos. Uma catástrofe ideológica para as esquerdas em geral!