quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sandra e Icauã

Ensaio
18 fevereiro de 2014
Por Movimento Síntese Socialista

Centenas de pessoas compareceram ao velório de Sandra Fernandes (48) e de seu filho Icauã Rodrigues (10) ontem à tarde, segunda-feira, 17/02/2014, em Paulista-PE. Os dois foram cruelmente assassinados por Marcos Aurélio da Silva (23), que alegou "ciúme" como motivo do crime. Marcos Aurélio parecia não apenas querer calar ou submeter Sandra. Parecia querer descarregar nela todos os seus preconceitos, frustrações, covardias e ódios machistas, através de socos e golpes de faca. Icauã, pequeno e lindo garoto, teve a dignidade de lutar pela vida da mãe e acabou morrendo em combate. Marcos Aurélio tentou desfigurar os dois. Trata-se de um ser humano para quem a vida das mulheres (e das crianças) tem valor insignificante. Parecia entender que Sandra mereceu o destino que teve. Sem arrependimento, sem abalo emocional. Voltou para casa, descansou e esperou ser capturado. Para Marcos Aurélio exigimos que nenhuma benevolência legal lhe seja concedida. Não podemos estar senão abalados, transtornados, indignados e tomados de ira por mais essa bárbara expressão de machismo e de violência cometidos contra Sandra e, em certo sentido, contra todas as mulheres. Nenhuma violência contra uma mulher é uma violência apenas singular. Não está sendo fácil escrever esta nota.
Muitos de nós conhecíamos Sandra e Icauã. Em quantas reuniões estivemos juntos com ela, enquanto Icauã ficava pacientemente brincando do lado de fora da sala com algum outro filho ou filha de militante, ou mesmo jogando em um computador? Sandra militou muito tempo pela causa do fim da violência contra as mulheres: no SIMPERE, sindicato no qual era diretora; em sala de aula como professora; no PSTU, partido do qual fazia parte; na vida amorosa ou privada. Neste momento, a perda de Sandra não é uma perda apenas de seus familiares, dos militantes do PSTU ou dos professores do SIMPERE. É uma perda de todos nós, homens e mulheres militantes da causa da emancipação das mulheres e dos trabalhadores. Nesse sentido, Sandra era uma militante de todos os diferentes movimentos e organizações feministas e socialistas. Inclusive do Síntese. É um alerta grandioso o fato de que logo ela, ativista das causas feministas, tenha sido vítima de um crime tão estúpido e machista como esse.
Vivemos um verdadeiro extermínio das mulheres no Brasil. Não apenas no Brasil. Mas por aqui, pelo menos desde a década de 1990, o rebaixamento da condição das mulheres vem sendo constantemente incrementado. Tratada como mercadoria pelas grandes empresas monopólicas, como ser humano inferior por crenças religiosas medievais, como trabalhadora superexplorada no mercado de trabalho externo ou doméstico, como objeto em muitas relações amorosas, com desprezo ou indiferença pelos órgãos governamentais que foram criados para protegê-las, a situação das mulheres, especialmente aquelas que são obrigadas viver de seu próprio trabalho, lembra o cerco a uma população em ataque permanente. O mais trágico é que os agressores são, na grande maioria dos casos, membros da mesma parcela da população que elas. Trabalhadores exterminando trabalhadores. Oprimidos exterminando oprimidos. Certamente o machismo não pode ser reduzido a um problema vinculado ao capitalismo. Tem sua lógica e funcionamento para além dele. Mas certamente tem a ver com o desenvolvimento e vigência destruidora da propriedade privada em suas diferentes manifestações históricas. Qualquer militante hoje em dia que não entenda que não é possível emancipar a humanidade sem a emancipação das mulheres, ou é ingênuo, ou foi dogmaticamente doutrinado, ou é um farsante. O índice de libertação e autonomia das mulheres é um dos principais indicadores da proximidade de uma sociedade igualitária. Quanto mais as mulheres se colocam à frente das lutas e das resoluções dos problemas do cotidiano que dizem respeito a elas e a todos, mais sabemos que nosso movimento emancipador está forte. A atual realidade das mulheres apenas atesta nossa fraqueza.
Nesse sentido, a Lei Maria da Penha, enquanto lei e com todos os limites que qualquer lei possui, foi um avanço. Mas esse avanço legal não se transfere para a esfera real e cotidiana da vida das mulheres. A violência contra elas voltou a crescer mesmo depois da lei. Ter uma presidente mulher, ou uma governadora, ou uma prefeita etc. não significa necessariamente que as mulheres em geral, especialmente as que se encontram mais abaixo da pirâmide social, estão sofrendo menos agressões e violências.
Mas há também outro indicador, além do relacionado à autonomia e liberdade das mulheres, que segue na mesma direção. É aquele que diz respeito à forma como são educadas e tratadas nossas crianças. Nossos pequenos espelham tanto as relações sociais atuais quanto o que deixamos como legado para o futuro. Infelizmente, a violência, os maus-tratos, a humilhação e a tortura contra nossas crianças e adolescentes são também práticas corriqueiras. Em uma sociedade desigual e violenta como a nossa, as crianças são também as primeiras vítimas. E ainda existem aqueles que querem imputar a elas, crianças e adolescentes, a culpa por muitos dos problemas gerados pelos adultos. Uma dessas formas é com a ofensiva conservadora que propõe a diminuição da maioridade penal, como se o extermínio dos jovens e crianças das periferias, em especial dos negros, fosse ainda insuficiente.
Sandra não era uma das principais dirigentes do sindicato ou do partido, nem tampouco uma grande intelectual. Era uma militante simples como a maioria de nós. Mas ela tinha algumas virtudes que dificilmente são conciliáveis na militância política dos dias de hoje e que dificilmente vemos nos principais dirigentes ou mesmo em grandes intelectuais. Sandra conciliava a capacidade de "tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo" (Che Guevara) com a alegria de viver. Sandra era uma pessoa generosa e que buscava da vida o encontro com os outros, a companhia, a alegria. Nesse sentido, sua lembrança nos ensina muito mais do que dezenas de livros e/ou cartilhas. De Icauã, lembraremos sua serena paciência e simpatia quando presente entre os adultos que falavam muitas vezes de coisas nada interessantes para crianças como ele. Do lindo homem que estava se tornando.
Sandra e Icauã estarão presentes em nossa luta. Não esqueceremos de suas características pessoais, de seus jeitos, de suas idiossincrasias. Mas também não esqueceremos que eles fazem parte da triste realidade do extermínio das mulheres e da agressão sistemática contra as crianças. Continuar a luta permanente contra ambas as formas de violência, modificando-nos e autocombatendo todos os preconceitos que também existem em nós, é uma forma de honrar os dois e todos os demais que sofrem, muitas vezes em silêncio.


PS: no momento de finalização deste texto ficamos sabendo de mais um torpe crime contra as mulheres. A vítima, Adenice da Silva (29), foi morta ontem de modo brutal, com tijoladas, por Jefferson de Souza (23) em Caruaru-PE. Também a ela rendemos nossa homenagem.