segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Carta aberta às esquerdas antigovernistas, anti-imperialistas e anticapitalistas da UFPE

Ensaio
3 fevereiro 2014
Por Alberto Luis Cordeiro, militante e graduando em ciências sociais

Um balanço necessário
O ano de 2002 é um marco na história recente do Brasil, com significados ainda mais profundos e duradouros para as esquerdas partidária e social. Para além das considerações a respeito da natureza das mudanças decorrentes das políticas adotadas pelos sucessivos governos do PT (Lula e Dilma) – se estruturais ou conjunturais, o que ademais somente a boa e necessária distância histórica poderá categorizar –, as consequências políticas da ascensão do maior partido da esquerda socialdemocrata do cone sul ao governo do, por sua vez, maior (econômica e politicamente) país da região, arrastando consigo setores numerosos dos principais instrumentos de coordenação da luta dos trabalhadores da cidade e do campo e dos estudantes, se fizeram sentir desde muito cedo. Aquilo que vem sendo chamado, em nossa opinião corretamente, de cooptação dos movimentos sociais e sindicais, através da absorção de quadros pela máquina burocrática do Estado brasileiro, foi fator desencadeador de rupturas. O aumento da fragmentação das esquerdas surge aqui como um fato alarmante no contexto das lutas de classes no Brasil.
Um balanço, uma avaliação mínima das experiências desses mais de 10 anos deve considerar elementos objetivos e subjetivos norteadores de todo esse processo, o que pela complexidade que assume não é uma tarefa individual, mas necessariamente coletiva, não de um partido, mas do conjunto das esquerdas. É preciso, por exemplo, considerar os problemas de época que marcam a política no contexto atual, e que fogem a soluções de tipo voluntarista (isto é, que se localizam na esfera da vontade). O que implica uma reflexão de longo alcance cujo sucesso depende em parte da renúncia à lógica analógica (aquela que não consegue pensar o tempo presente senão por analogia histórica, a qual escapam quase sempre as idiossincrasias do próprio tempo) e a adesão ao conselho leniniano da análise concreta de uma situação concreta como princípio.
Um dado, porém, salta aos olhos: o saldo político das esquerdas na luta contra o Capital. Levando em consideração apenas o movimento estudantil, tivemos nesse período uma série de lutas em nível nacional e local. Essas lutas tiveram resultados diferenciados, algumas vezes com perdas políticas (pauta do movimento) e ganhos organizativos (reconstrução de DCE’s, DA’s, formação de coletivos importantes etc); em alguns locais, às vezes com vitória da pauta sugerida pelo movimento e outras com estrondosas derrotas em combinações as mais variadas. Mas o fato é que tomadas em conjunto essas lutas não conseguiram reverter ou barrar políticas educacionais, reformas do ensino e/ou medidas autoritárias na maior parte das universidades onde ocorreram. O REUNI foi aprovado em conselhos universitários na maioria absoluta das universidades do país, apesar das ondas de mobilização de 2007/2008. Nas estaduais paulistas, a luta contra a pesquisa operacional na mesma época ou contra a presença da PM no Campus – mais recentemente na USP – não conseguiu se impor diante das administrações locais ou dos governos estaduais e federal. A EBSERH também foi aprovada em grande número de IFES, salvo raras exceções.

O contexto da UFPE, a nova conjuntura e a necessidade de unidade das Esquerdas
Na UFPE o quadro apresenta formas semelhantes com tons mais dramáticos. Não só não conseguimos barrar todos esses projetos como ainda assistimos à imobilização do DCE decorrente dentre outras coisas da luta por aparatos e fratricida entre as próprias esquerdas, além é claro do impacto de tudo isso na consciência d@s estudantes: adoção de alternativas sectárias como a dissolução dos instrumentos de organização e coordenação d@s estudantes por curso (DA’s), o incremento da desconfiança com os partidos de esquerda e a incredulidade na militância política, hoje um dos poucos bens comuns da esquerda local.
A perspectiva das eleições de março, todavia, abre para nós a possibilidade de dar um primeiro passo na modificação desse estado de coisas. As eleições se constituem em momento ainda privilegiado para o diálogo e a disputa de projetos e consciências na Universidade, com todo o clima e estrutura favoráveis ao debate político (mas também, é preciso reconhecer, a seu inverso, o discurso vazio do eleitoralismo). Ainda que essas eleições em nossa leitura não sejam per si um sinal de mudança no tempo político do ME local, isto é, não signifiquem por si só um ponto de inflexão no movimento estudantil, seu renascimento ou coisa e tal, abre possibilidades para uma mudança na dinâmica do mesmo. Em suma, o tempo das conjunturas (as brechas para ação estratégica) nesse momento está aberto à intervenção transformadora das esquerdas locais. Entretanto, tal como podemos constatar hoje, o cenário político pré-eleitoral na UFPE reproduz, no que concerne a configuração de alianças políticas, o mesmo cenário para eleições estaduais do segundo semestre, ou seja, de total fragmentação das esquerdas.
Nós do Síntese cremos tão necessário quanto possível uma unidade das esquerdas antigovernistas, anti-imperialistas e anticapitalistas para as eleições do DCE/UFPE, que se mantenha nas lutas pós-eleições. Tal unidade deve congregar setores da esquerda institucional (PSOL, PCB e PSTU), não institucional (PCR) e vários estudantes independentes. Não deve basear-se em um acordo abstrato, muito menos em um acordo de princípio. Pelo contrário, deve fundar-se em um programa comum, com eixos de defesa da laicidade e gratuidade da Universidade, bem como do seu caráter público, democrático e autônomo, com amplo espaço para o debate ideológico hoje marginalizado na prática militante pelo praticismo hegemônico. Baseado evidentemente na independência financeira e política frente à reitoria, empresas etc. Tal unidade abriria possibilidades amplas de diálogo com a esquerda não organizada da Universidade, bem como serviria como pólo de atração para movimentos sociais de esquerda (MST, movimentos de gênero, LGBTT, coletivos de estudantes etc) ampliando nossa audiência e amplificando nossas vozes. Tanto mais importante em um contexto de recrudescimento do apartidarismo e de perda de referências no socialismo.
Estamos cientes das várias diferenças entre os setores das esquerdas a que nos referimos, mas ponderamos mais uma vez o caráter delas, algumas das quais deitam raízes em eventos históricos profundos, acerca dos quais não haverá acordo em curto-médio prazo (quiçá, nunca). Para aquel@s que tem como horizonte ético-político a aposta  estratégica na transição socialista, nada deve parecer impossível. Construir a unidade na multiplicidade, com base em um programa que tenha como referência as necessidades políticas d@s estudantes-trabalhadores da nossa Universidade. Essa a tarefa que nos devemos propor. Esse o desafio que teremos que enfrentar no período que se abre!