sábado, 8 de fevereiro de 2014

A cultura política do Bombril

Ensaio
07 fevereiro 2014
Por Michel Zaidan Filho, filósofo, historiador, coordenador do Núcleo de Estudos Eleitorais, Partidários e da Democracia [NEEPD] e professor associado do Departamento de História da Universidade Federal de Pernambuco [UFPE].

Fui surpreendido, ontem, por um pedido de entrevista de um dos veículos do sistema JC de comunicação. A repórter queria uma avaliação sobre a decisão do senador e ex-governador do estado, filiado ao PMDB, de não mais concorrer à reeleição ao senado e sua indicação do nome de opocisionista Raul Jungmann (PPS) para integrar a chapa majoritária do PSB ao governo do estado de Pernambuco! Surpresa? Nem tanto. Mas se um marciano pousasse em Pernambuco e tentasse entender a política brasileira, teria com certeza muita dificuldade. Como é possível que um político que foi em passado recente um duro crítico da família do atual governador indique um oposicionista de carteirinha para ser candidato a vice-governador na chapa do principal alvo de críticas durante todos esses anos?
Pois é. Aí, nós temos de dar razão ao ex-governador Gustavo Krause (DEM), que uma vez disse que a política entre nós é como bombril, serve para tudo, tem mil-e-uma utilidades, inclusive a de um inveterado crítico ser ao mesmo tempo parceiro político do criticado, sem muitas explicações. Mas há outras razões que iluminam esse caso:
1) a trajetória política do próprio Jungmann. Este cidadão é um personagem à procura de um autor que o leve a sério. Já foi “arraesista”, na época que tinha um aparelho instalado no edifício São Carlos, chamado "Avança Recife", tido como linha auxiliar do governo do PSB. Depois, entrou no Partido Comunista Brasileiro, compondo a ala mais radical do partido. Finalmente, tornou-se "um quadro à disposição" do PSDB, quando se tornou assessor dos governadores cearenses do PSDB. Foi parar no ministério do planejamento, no IBAMA e, finalmente, no Ministério da Reforma Agrária. Quando saiu do governo de FHC, continuou "à disposição" do PSDB: procurou filiar-se ao PMDB para combater a candidatura de Itamar Franco. Não o aceitaram. Procurou o próprio PSDB, mas também não obteve guarida por lá.  Veio cair no PPS de Roberto Freire. Conclusão: um quadro-laranja, ora à disposição do PSDB nacional, ora à disposição do PMDB local, comandado personalisticamente pelo ex-governador de Pernambuco. A sua indicação por este político para compor a chapa majoritária às eleições do estado se elucida pelo efeito Bombril e pela sua inesgotável servidão ao efeito laranja, no caso específico, laranja do PMDB jarbista (anti-lulista) de oposição.
2) Mas a repórter também quis saber as razões da desistência do ex-governador em se recandidatar para concorrer a mais um mandato pelo Senado Federal. Essa resposta é mais fácil: a coligação que o elegeu governador e senador por Pernambuco, acabou-se, desfez-se como uma bolha de sabão. O risco de mais uma derrota no currículo vitorioso do senador é muito grande. No ambiente de absoluta e total cooptação e aliciamento dos partidos "Bombril" e "laranja", ser oposição é tarefa muito difícil, senão inglória. Só permanece como oposição, quem não tem como aderir à situação. Com as honrosas exceções de praxe: os partidos ideológicos, da esquerda, que não são partidos de mera competição eleitoral cujo fim é a vitória a qualquer preço.
3) O anti-lulismo é a única coisa que une esses partidos e políticos. Todos querem a mesma coisa, mas vão deixar a briga pelo butim para depois da sonhada derrota de Dilma Rousseff.