sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Rolezinhos em Recife: a ‘vibe’ é outra

Ensaio
26 Janeiro 2014
Por René Cortez, trabalhador e ativista social

Em primeiro lugar, considero importante esclarecer que o que houve no Shopping Rio Mar (sábado, 25/01) intitulado de “Rolezinho no Rio Mar” foi um ato político de repudio aos valores preconceituosos presente nos shoppings. E não um rolezinho no sentido estrito do termo.
Rolezinhos são encontros marcados por jovens para curtir, conversar, paquerar e conhecer pessoas novas. Os jovens que organizam e participam dos rolezinhos são majoritariamente negr@s da periferia. Em São Paulo, esses jovens passaram a ocupar o espaço privado dos shoppings depois que a policia começou a proibir e criminalizar os bailes nas comunidades. Pela internet, os jovens começaram a organizar esses encontros que ganharam o nome de rolezinhos. Depois das repressões e repercussões nacionais, os rolezinhos se espalharam por todo o país.
Nos rolezinhos, os jovens juntam-se para se divertir ao som do funk ostentação, celebrando a posse de roupas de grife, tênis caros, carros de luxo, jóias e mulheres (novinhas). Em suma, no funk ostentação se cultua o consumo e a mercadoria.

Rolezinhos e o fetichismo da mercadoria
Não podemos secundarizar e deixar de analisar o conteúdo reacionário presente nos rolezinhos. Estou me referindo ao forte apelo ao consumo de mercadorias. Sabemos que o fetichismo da mercadoria é um fenômeno social e psicológico onde as mercadorias aparentam ter uma vontade independente de seus produtores, atribuindo ao objeto uma qualidade que não tem.
No funk ostentação e nos rolezinhos há um forte e permanente culto da mercadoria, que é difundido nas letras das musicas que embalam a juventude e influenciam suas vidas, nas relações com outros jovens e até mesmo na forma de se vestir. Não se trata de estigmatizar ou rotular os jovens que participam dos rolezinhos, mas de enxergar criticamente os vários aspectos presentes nesse movimento.
O funk ostentação se expande pelo país criando estilos diferentes como o brega-ostentação ou brega-funk de ostentação, presente também aqui em Recife. Apesar de estilos musicais diferentes, o conteúdo e a forma são parecidos. Tanto no brega de Recife, quanto no funk de São Paulo, as relações humanas são secundarizadas em detrimento das relações entre as coisas. O que passar a definir o jovem é a roupa de grife, o tênis de marca, a corrente e o relógio de ouro que ele usa.
Outro aspecto negativo é a forma como o funk e o brega veem as mulheres (novinhas). Nesse caso, o machismo presente nas letras e no tratamento às mulheres. Expressando um dos aspectos da sociedade capitalista, reduzem as mulheres a objetos de consumo. Quanto mais nova for a mulher, mais status se acrescenta ao homem.
Portanto, não podemos capitular a esses elementos reacionários dos rolezinhos. Essa critica não significa que não reconhecemos o elemento contestador desse movimento, pois se trata de uma forma de expressão de um setor de massas da sociedade, com todas suas contradições e elementos de consciência atrasados.
Um aspecto positivo dos rolezinhos é que após a repressão da polícia, os jovens que os frequentam sentem a necessidade de romper a barreira do preconceito. E a repressão desencadeou por todo o país uma onda de solidariedade, explodindo rolezinhos por todo o território nacional, abrindo uma disputa pela consciência e ampliação das reivindicações desse movimento.

Em Recife a ‘vibe’ é outra
Precisamos sempre nos preocupar em não aplicar de forma estereotipada, os mesmo métodos em realidade diferentes. Foi essa falta de sensibilidade que aconteceu no evento intitulado “Rolezinho no Rio Mar”. O ato em si foi importante e cumpriu o seu papel de denunciar a higienização social nos shoppings centers e se o objetivo inicial da atividade no shopping rio mar era demarcar campo, seu objetivo foi atingido. Mas o ato não conseguiu dialogar com as juventudes que estão sendo os sujeitos políticos desde junho de 2013.
Penso que em Recife há características diferentes de São Paulo. Há também uma superestrutural visão da juventude do Recife. Não é no shopping rio mar nem no shopping recife que a juventude se encontra para dar um role, mas nos shopping boa vista e shopping tacaruna.
No shopping boa vista existe talvez um dos rolezinhos mais antigos dos shoppings de recife. Nesse shopping, em 2006, depois de uma forte campanha da rede Globo contra a juventude (em sua maioria homossexual) que frequentava a Rua do Jiriquiti, a polícia de Jarbas Vasconcelos encampou uma forte repressão contra os jovens frequentadores daquele espaço. Ainda que de forma implícita, os jovens continuam resistindo e dando seus roles no shopping boa vista. O mesmo acontece no shopping tacaruna, principal ponto de encontro da juventude de recife. Os rolezinhos nos shoppings de recife são diferentes dos de São Paulo.

Tarefas concretas para uma situação concreta
Precisamos dialogar com a juventude dos rolezinhos sem autoritarismo e mostrar que existe outra via para atingir nossos objetivos, a via da luta. Estes jovens são funkeiros, gostam de brega e entoam canções de ostentação, mas também são jovens que estão em subempregos. Em sua maioria, compõem a classe dos trabalhadores precarizados, estudam e trabalham e suas vidas não mudam. São jovens que moram na periferia, longe do aceso ao lazer e a cultura, segregados da cidade. Devemos debater com essa juventude outra perspectiva de sociedade, que não pode se resumir ao consumo de marcas.
Em Recife precisamos lutar pela criação de espaços públicos para a juventude curtir. Até porque não só tem os jovens que curtem brega, mas também a juventude que curte rock, hip hop, grafite etc. Mas o que todas essas expressões culturais tem em comum é que todas são marginalizadas numa cidade marcada pela ausência de espaços culturais públicos. A primeira tarefa é levar em consideração as características de nossa cidade e debater com esses jovens as alternativas concretas para as suas vidas.