sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Por uma nova frente única de esquerda

Ensaio
06 janeiro 2013
Por Leal de Campos, militante socialista e ex-preso político.

As experiências que se tem até os dias de hoje são de “frentes populares” nas quais sempre esteve implícita uma “aliança com os setores das burguesias, ditas nacionalistas e progressistas” - tendo por objetivo a participação em pleitos eleitorais e a busca de uma possível “composição” para um governo popular e reformista.
Todavia, casos como os da Frente Popular de 1936 na França e na Espanha, bem como o da Frente Popular de 1937 no Chile, já evidenciavam os impasses e os entraves para as improváveis e remotas possibilidades de uma transição ao Socialismo por um caminho eleitoral e pacifico. Todas elas, sem exceção, se constituíram para atuarem nas eleições, apresentando programas nacional-desenvolvimentistas com base numa ampla e precária aliança (entre socialistas, comunistas e radicais etc) com os setores de centro-direita. Uma aposta política cega que não levaria a avanços significativos.
Por trás dessa visão política sempre esteve em voga o conceito da necessidade de se promover, inicialmente, um processo político por etapas. Isto é, uma política levada à prática através de ações parlamentares, visando se estabelecer uma sociedade socialista posteriormente, ao longo do tempo. Entretanto, nunca se esclareceu “como e por que?” as burguesias iriam viabilizar isso até as últimas consequências, sem reagirem às ameaças aos seus seculares privilégios. Um falso enigma a ser decifrado.
E, nessa direção, a experiência mais trágica que se teve na América Latina foi a do governo de “Unidade Popular” do Chile a partir de 1971, tendo o socialista Salvador Allende como presidente, derrubado e morto por um sangrento golpe civil-militar em 1973, promovido pelos setores conservadores chilenos com o explícito apoio das Forças Armadas, das corporações empresariais internas e externas, da ditadura brasileira de então e dos Estados Unidos. A referida coalizão política que era composta pelos Partidos Socialista e Comunista, uma ala do Partido Radical e o MAPU (Movimento de Ação Popular Unitária), acreditava num acordo com a burguesia chilena para implementar um programa de nacionalizações e de desenvolvimento econômico próprio. 
Sabe-se, entrementes, que um governo dito popular, no qual estejam também incorporados representantes de grupos estimulados pelos ganhos econômicos, sejam baseados em atividades produtivas e de serviços, bem como em especulações financeiras, está inviabilizado desde a sua formação, pois fica muito claro que os capitalistas não irão defender os interesses dos trabalhadores e nem de outros segmentos populares. Sem nenhuma chance! Na prática, a soberania nacional e a autonomia econômica perante outras nações nada tem a ver com os empresários desde que “o capital não tem pátria” e o que lhes importa mesmo é a lucratividade dos seus negócios.
Em algumas ocasiões, as esquerdas em geral, ou agrupamentos de esquerda, também se unem em eventuais “frentes” para participarem das eleições, com programas de cunho democrático-popular”. Mas, após o término dos pleitos elas se dissolvem e cada um volta a atuar de forma peculiar, isolada, tendendo a alcançar uma “hegemonia” política perante todas as outras. É a “Quarta-Feira de Cinzas” da política de esquerda, dentro da qual cada grupo se acha o dono de uma “verdade absoluta” e “ungido” entre os demais para vir a ser o tal “partido condutor da revolução” - aquele que vai modificar o país e, consequentemente, o mundo. Entretanto, o que conta sempre é a disputa pelo controle dos movimentos sociais e dos aparelhos das uniões estudantis, dos sindicatos e das centrais de trabalhadores, visto que o que faz mais sentido para todas elas é a prática inconsequente e desagregadora da instrumentalização tola e egoísta. Fruto de uma leitura equivocada e distorcida apoiada na autofirmação.
Portanto, em contraposição a isso, o que se propõe é a formalização de uma “frente única de esquerda permanente” de caráter não reformista, que não venha a priorizar exclusivamente os processos eleitorais e que se desenvolva nas pugnas diárias contra todas as chagas do Capitalismo. Que aos poucos nos possibilite construir um “programa mínimo de transição” que seja capaz de consubstanciar e tornar exequível as lutas pela transformação social. Uma proposta de funcionamento tipo fórum de debates. Que se constitua numa ampla frente anticapitalista onde prevaleça a unidade e o consenso após discussões, alicerçadas naquilo que soma e não no que divide.
Dito isso, percebe-se toda a sorte de dificuldades que se tem para se levar adiante essa empreitada, tendo em vista a superação dos obstáculos que impedem a consecução desse projeto que é revolucionário por si só e que se apresenta autônomo, independente e plural. Tendo, por esteio, os movimentos sociais e as inovadoras formas de “poder popular local” que possam ir se estabelecendo no decorrer do processo de lutas, no dia a dia. Uma série de novas alternativas de organização pela base em que as contribuições políticas de cada um deverão estar voltadas, principalmente, para o imprescindível trabalho de esclarecimento e conscientização política das massas, sem a preocupação indevida do comando partidário, pois o mais importante acima de tudo é a necessidade de se criar e promover “correntes de pensamento” favoráveis às propostas socialistas. E, ao mesmo tempo, minimizar a real desinformação da maioria da população ao passar, didaticamente, um conhecimento básico sobre todas as coisas. Isto, por conseguinte, vai muito além dos “marxismos-leninismos” em moda que ainda permeiam o pensamento das esquerdas em geral e que, inconsequentemente, sustentam uma estúpida e insana guerra fratricida entre os vários grupos distintos. Uma tragédia sem fim.
Urge que se concretize, nesse caso, uma popularização do conhecimento científico e filosófico em direção às mudanças que se fazem necessárias, num nível de compreensão que seja de fácil assimilação por todos. Sem isso o movimento de massas não estará apto a preservar e defender as suas conquistas num caminho de construção revolucionária em todos os níveis, sem amarras, evasivas ou manipulações.
Será possível alcançarmos isso um dia? Se não... Estaremos todos nós fadados ao fracasso numa situação crucial de total egoísmo e falta de compromisso com a História, e porque não dizer com todas as letras de um “suicídio político” baldado, inútil.
Para se alcançar a plena vitória na luta de classes não basta tão somente o “discurso revolucionário” e muito menos a preocupação com a supremacia na política de esquerda, visto que nada disso servirá para uma possível derrocada do Capitalismo e consequente ascensão de uma nova sociedade que seja justa, fraterna e igualitária. Uma nova ordem, um novo mundo. Ou seja, o sistema capitalista não será erradicado da face da terra sem que exista desde já “uma ponte que vá aprimorando uma nova prática de se fazer política, espelhada na transparência de princípios e de estratégia, e que nos leve na direção de um Socialismo de natureza essencialmente democrática. Sem partido único, é claro!