segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

O que Gramsci e o peemedebismo têm a falar de partidos políticos no Brasil?

Ensaio
16 janeiro 2014
Por Tato Silva, ativista social, bacharel em filosofia e bacharelando em direito.

Não, eu não enlouqueci. Não estou dizendo que o filósofo italiano tenha alguma coisa em comum com o PMDB e, mais especialmente, com a forma de atuação do PMDB. Não seria autor de uma leviandade desse tipo. O que eu chamo atenção é justamente para o antagonismo das duas visões, de forma bem preliminar e que convida a uma reflexão maior por parte do leitor, e em como o nosso país não tem um partido político definitivamente forte (ou se tem o tem em uma ou duas siglas), mas aglomerados de filiados que convenientemente preferem “a escolha que não seja tão ruim” do que realmente elaborar um plano de ação. Vamos aos pontos.
Para Gramsci um partido político faz-se necessário (quase de forma indispensável) que na sua marcha para a transformação em Estado (e aqui se subentende que o fim de um partido seja por o seu programa em execução dentro do governo) nada pode parecer obscuro e que todos os seus passos devem estar bem claros e serem previsíveis uns em relação aos outros. Um partido deve ter um plano claro e que deve ser seguido à risca sem interrupções ou mudanças bruscas de rumo. A marcha partidária para Gramsci seria indispensável para o êxito, necessário, de todo e qualquer partido.
Ademais o partido político seria a fusão de três elementos fundamentais: um corpo comum e médio que serviria de base para que o partido se desenvolva. Esse corpo deve ser composto de indivíduos fiéis ao programa e que servirão de trabalhadores da legenda. Responsáveis pelo que se pode encarar como “militância partidária”. Um segundo elemento seria um fator de centralização, coesão e inovação partidária. Aqui haveria espaço para novas proposições e novas perspectivas para se chegar a um denominador mais próximo do que se quer para atingir melhor ao fim partidário e ao projeto “nacional” que todo partido carrega no ventre. Essa liderança partidária comanda e guia o primeiro elemento de força da legenda a partir de um terceiro elemento que é justamente uma moderação e mediação, óleo para fazer a engrenagem funcionar. Tais elementos podem ser vistos no Brasil? No que Gramsci torna-se inviável em seu projeto de partido?
Justamente na influência do peemedebismo na política partidária brasileira. E para essa conclusão eu me apóio no pensador brasileiro e professor da Unicamp Marcos Nobre.
O PMDB (antigo MDB) reunia desde o período militar todas as correntes legalizadas de oposição. Era um mundo de ideologias sob uma sigla só. Já aí a unidade gramsciana disposta nos três elementos e na clareza de ação do partido político cai por água abaixo. O nosso peemedebismo é justamente essa impossibilidade de união em torno de um ponto só e a total capacidade de absorver várias tendências muitas vezes complicadas e antagônicas. Dessa imensidão de ideologias e correntes políticas dentro de um partido só brotam duas características importantes do PMDB que se espalham por outros partidos: a capacidade de veto (de dizer não e emperrar o próprio partido) e a grande permissividade e até negociação de tudo que se puder negociar para ação partidária.
Resultado disso: governo de eterna situação. Governo que é e não é governo o tempo inteiro e deslocamento do objetivo do partido em permanecer no poder e não em se tornar num projeto de governo o seu próprio projeto de partido. Na quebra de braço ocorrida no Brasil, o peemedebismo vendeu o gramscismo (apesar de existirem ainda os lunáticos que dizem que há um golpe gramsciano em plena efervescência nesse país). A pergunta do título é respondida: eles teriam coisas a dizer sobre um objeto comum, mesmo que de formas bem distintas. Todavia a escolha do cenário político escolheu o partido de todos os governos a um governo de acordo com um partido que seja a representação da vontade do povo. Infelizmente...