quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Das jornadas de junho aos rolezinhos

Boletim Janeiro 2014
24 janeiro 2014
Por Movimento Síntese Socialista

Após um ano politicamente marcado na história brasileira pelas grandes mobilizações que tomaram nossas ruas nos meses de junho e julho, 2014 teve início com um fato político no mínimo inusitado. A ocupação dos shoppings centers por jovens negr@s oriund@s das periferias de São Paulo gerou intenso debate em todo país seguido por manifestações exaltadas de condenação e solidariedade. Os “rolezinhos”, como estão sendo designados pela imprensa e pelos organizadores dos encontros em shoppings marcados via facebook, que chegaram a reunir em alguns locais centenas de jovens, estão gerando forte reação por parte dos governos e da polícia, justificada por uma suposta preocupação com a segurança e o patrimônio empresarial.
Contudo, a reação do poder público, da polícia e da imprensa que respondem aos interesses das classes dominantes do país, revelam algo muito além da simples preocupação com a segurança de transeuntes e consumidores. Trata-se do alto nível de segregação social e racial subjacente a essa preocupação e a prioridade da proteção da propriedade privada e seus valores civilizatórios.
Pode-se ver nos “rolezinhos” um subproduto das escolhas políticas feitas no país pelo menos nos últimos 10 anos, levadas a cabo pelos sucessivos governos do bloco político encabeçado pelo Partido dos Trabalhadores (PT), de que resultou uma desconcentração de renda no pólo social composto por trabalhadores assalariados e num aumento do consumo e do endividamento incentivado. Os jovens negr@s e não brancos das periferias de diversas capitais do país estão sendo mobilizados pelo desejo de consumo alimentado pela propaganda oficial e privada e cuja realização é obstaculizada por condição de classe.
Ao mesmo tempo, os “rolezinhos” chamam a atenção para a crescente privatização das cidades, que tem encurtado as possibilidades de entretenimento, sobretudo desses jovens exilados nas periferias, convertidas em vários casos em verdadeiros “guetos”. O modelo urbano adotado nas grandes capitais do país segue a lógica da exclusão sistemática daqueles que vivem do seu próprio trabalho, acentuada com a inserção cada vez maior do capital financeiro no setor imobiliário. Aqui, a condição racial de negr@s e não brancos se confunde com a condição de classe, afinal de contas as proibições afetam jovens negr@s trabalhadores. O movimento traduz a capacidade criativa das classes trabalhadoras, suas potencialidades, mas também seus limites. Se expõe o fato notório das classes que vivem da venda de sua própria força de trabalho serem capazes de criar suas próprias formas de manifestação (de uma hora para outra construindo linguagens onde antes se instalara o mais do mesmo dos atos de rua e palavras de ordem) traz a tona também a necessidade de maior politização do movimento: a ampliação de seus horizontes políticos.
Defendemos a anulação imediata das liminares que garantem o direito de segregação aos shoppings; o imediato debate público com governos de todas as esferas sobre a pauta da ampliação dos espaços e condições de acesso à arte, cultura e lazer que possam contribuir para a inclusão, a emancipação e garantia de direitos das juventudes, principalmente da juventude negra, pobre e de periferia.

Unidade das esquerdas nas lutas e nas eleições
Fatos como as jornadas de junho e os “rolezinhos” são sintomáticos de mudanças na conjuntura política do país. O momento em que ocorrem, contudo, é o de completa fragmentação e dispersão das forças das esquerdas, que já apontam para o isolamento nas eleições de 2014. É preciso construir a unidade nas lutas e nas eleições que deve se dar a partir da elaboração de um programa comum a ser apresentado aos trabalhador@s brasileir@s. Sabemos das diferenças entre os vários setores das esquerdas. Sabemos também que, por um lado, essas diferenças têm matrizes históricas profundas e que, portanto, não serão superadas do dia para a noite. Mas, por outro lado, é possível construir uma unidade na multiplicidade, com base em um programa que tenha como referência as necessidades políticas e materiais das classes trabalhadoras do país, para além de questões apenas de princípio. Acreditamos na necessidade e na possibilidade de uma unidade entre os partidos de esquerda – PCB, PSOL e PSTU – que congregue em nível local e nacional organizações não institucionais das esquerdas, movimentos sociais, intelectuais e as esquerdas sociais apontando para a construção de um projeto maior para os trabalhadores e a juventude brasileira.