terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Randolfe Rodrigues [PSOL]: um nome que inviabiliza a frente de esquerda para as eleições de 2014

01 dezembro 2013
Por René Cortez é trabalhador e ativista social

Ensaio
Randolfe Rodrigues [PSOL]: um nome que inviabiliza a frente de esquerda para as eleições de 2014

Trilhando o mesmo caminho do PT

A acomodação do PT ao regime democrático burguês se materializa através de uma formulação que considera como objetivo central da estratégia do partido a luta por mais espaço na institucionalidade. Por isso, as eleições se tornaram para o PT fundamentais e prioritárias. Em suma, o PT quer fazer parte do estado democrático burguês e para isso as eleições se tornaram um fim em si mesmo. Toda a flexibilidade e concessões no jogo da democracia burguesa se tornaram toleráveis. Desta forma, o PT foi flexibilizando a forma de financiamento eleitoral de suas campanhas, os parlamentares ganharam autonomia em relação às instâncias partidárias, a democracia partidária foi sufocando e desaparecendo e, por fim, o PT começou a adotar os mesmos métodos dos partidos burgueses, acabando de vez com os debates políticos e “esvaziando” os congressos do partido.

Neste IV Congresso do PSOL, vários ativistas sociais e militantes socialistas assistiram várias situações lamentáveis, de fraudes, agressões e denúncias de todo tipo. É lamentável ver o grau de degeneração a que estão imersas as correntes do campo majoritário.

Revisando a trajetória do PT, podemos concluir que o PT se converteu no contrário do projeto que originalmente procurava ser. Empenhou sua confiança na luta por dentro do regime democrático burguês e depositou todo seu compromisso em aperfeiçoar este regime. Essa é a questão que também está colocada ao PSOL. Infelizmente e a passos largos, o PSOL segue trilhando o mesmo erro histórico do PT.

Este é um tema que os setores coerentes do PSOL comprometidos com as tarefas da revolução socialista devem debater. Infelizmente, o espaço para tais debates, que é o Congresso do partido, foi inviabilizado. Como o PSOL ainda não é um partido com as instâncias democráticas consolidadas para tais discussões, acaba que o partido fica a mercê da pequenez e dos métodos degenerados da burocracia.

Porém, existem muitas desigualdades no PSOL. Cito, por exemplo, a importante resolução do PSOL-RJ, sobre a questão de Janira Rocha, que a expulsou das fileiras do partido, cabendo agora à direção nacional aplicar a resolução dos militantes do PSOL-RJ. Evidentemente, se tal fato ocorresse no Amapá a resolução seria outra. Fica claro, portanto, a desigualdade dentro do PSOL.


PSOL: um partido e dois projetos

“Um partido não existe só para “funcionar bem”, dar o máximo de rendimento eleitoral e político e “alcançar o poder”. Ele não existe “em si” e “para si”. Precisa absorver interesses e valores extrínsecos, de classe, facções de classes, ideologias e utopias, que instrumentalizam - através das mentalidades – as concepções do mundo em entrechoque e as correntes históricas” [Fernandes, Florestan. PT: Os dilemas da organização].

Há claramente dois projetos em disputas dentro PSOL, dois projetos antagônicos. Portanto, é necessário ter claro que o “projeto” PSOL ainda está em disputa. O PSOL ainda não é um partido homogêneo. Na verdade, o PSOL se quer conseguiu se consolidar como partido, pois apresenta fortes características de uma frente de vários agrupamentos políticos.

Neste IV Congresso, nitidamente visualizou-se dois projetos. De um lado, setores que defendem como objetivo final a mesma formulação estratégica realizada pelo PT. Ou seja, de lutar para alcançar mais espaço no estado democrático burguês, submetendo-se, portanto, aos limites da ordem capitalista. Do outro lado, um bloco de esquerda que luta para viabilizar o PSOL como um partido que represente os anseios da classe trabalhadora através de um programa anticapitalista como firme oposição de esquerda à frente popular.

A luta dos militantes em resistir a um processo de adaptação do PSOL à ordem materializou-se num bloco de esquerda ao IV Congresso do PSOL. Mas não foi suficiente. Uma burocracia que controla boa parte da máquina partidária e que tem um número razoável de mandatos parlamentares e prefeituras “comprou na feira” centenas de votantes para levantar crachás nas plenárias estaduais do PSOL. Sem dúvida, esses militantes comprados inviabilizaram o debate e a disputa por um projeto para o PSOL na medida em que ninguém convenceria um “militante” comprado e comprometido em votar na burocracia. Situações semelhantes a esta do PSOL, acompanhamos no PED (Processo de Eleição Direta) do PT aqui em Pernambuco.

Não considero a vitoria da “direita” PSOL um fato que coroa o fim do PSOL como uma alternativa de esquerda. As contradições no PSOL ainda continuarão, e continuariam mesmo que o bloco de esquerda vencesse o IV Congresso. A tarefa do PSOL ainda continua em resolver o seu conflito entre ser um partido da ordem abertamente reformista e defensor do capitalismo humanitário ou de ser um partido da classe trabalhadora, democrático nas discussões e nas suas escolhas. Um partido que luta contra o capitalismo tomando para si as tarefas políticas de transformação e revolução da ordem. Deste modo, acredito que ainda continua a luta pela consolidação do PSOL como um partido político de esquerda.


Randolfe Rodrigues versus Frente de Esquerda (PCB, PSTU e PSOL)

A aprovação do nome de Randolfe Rodrigues como pré candidato do PSOL a presidente nas eleições de 2014, sem duvida dificulta o debate para a construção de uma frente de esquerda. Isso porque Randolfe muito mais que um nome representa um projeto político partidário. Definitivamente, Randolfe não representa um nome das resistências e das lutas da juventude e dos trabalhadores, pelo simples fato de que o compromisso de Randolfe não é com as ruas.

O que pode garantir uma unidade de esquerda nas eleições de 2014 é a definição de alguns eixos importantes. Em primeiro lugar, nenhum apoio ou aliança com partidos governistas e da oposição burguesa, defesa das bandeiras históricas da classe trabalhadora, um programa anticapitalista, independência financeira sem nenhuma doação de empresas e alianças restritas aos partidos da frente de esquerda.

Sabemos que mesmo com esses eixos mínimos é muito difícil se viabilizar uma frente de esquerda para presidente em 2014, já que para Randolfe e os vários grupos da direita do PSOL que sustentaram seu nome, a luta para conquistar espaço no estado democrático burguês é o objetivo das lutas de classes. Exatamente o contrário que nós, marxistas, defendemos. Além disso, não estão descartadas alianças de todo tipo em vários lugares do Brasil para viabilizar a eleição de parlamentares. Essas alianças vão desde compromissos formais a “alianças laranjas” com o DEM, PPS, PDT, PT, PMDB, PCdoB, PSB, etc.

Recentemente o PSTU publicou uma nota apontando para uma frente de esquerda entre PCB, PSTU e PSOL. Não sei qual será a postura o PSTU depois da indicação do nome de Randolfe Rodrigues muito embora, nos bastidores, todos suspeitassem que o bloco de esquerda não venceria o congresso nacional do PSOL, devido às diversas fraudes cometidos pela direita do partido.

Em Natal e no Rio de Janeiro, seria muito importante a consolidação de uma frente de esquerda ainda que em âmbito regional, pois tanto em Natal quanto no Rio de Janeiro há grandes chances da esquerda socialista fazer um bom diálogo com a classe trabalhadora desses estados.

Aqui em Pernambuco, a situação é mais difícil tanto pela forte fragmentação da esquerda, quanto pelo forte pragmatismo eleitoreiro do PSOL-PE, que jogará todas suas fichas na eleição de Edilson Silva, que faz parte do campo majoritário do PSOL e que sustentou o nome de Randolfe Rodrigues.