sábado, 30 de novembro de 2013

Editorial 2

30 novembro 2013
Por Movimento Síntese Socialista

As lições que vem da Argentina: unidade dos marxismos revolucionários também para ocupar o espaço parlamentar


A esquerda revolucionária argentina parece dar importantes sinais de superação de sua crise histórica. Quem militou, foi simpatizante, conheceu por acidente festivo ou curiosidade política as organizações trotskistas, no final dos anos 1980 e no início da década de 1990, não pode deixar de recordar as lendárias expectativas que se criaram ao redor do Movimento al Socialismo [o Velho MAS], partido trotskista argentino, fundado em 1982, impulsionado pelo Partido Socialista dos Trabalhadores-PST como uma tática para construção de um partido amplo socialista, que se converteu posteriormente na então principal seção e cartão de visita da Liga Internacional dos Trabalhadores-LIT.

Não havia notícias de protestos ou greves vindas da Argentina que não trouxesse as expectativas de que o MAS, o grande MAS, não os estivesse impulsionando, participando na linha de frente ou mesmo dirigindo e que estávamos na “Hora do trotskismo”, como bem estampou um Correio Internacional da época. De fato, o MAS, já em meados dos anos 80, teve um importante crescimento, alcançou quase 50 mil filiados e abriu cerca de 500 sedes em todo o país, vendeu perto de 30 mil jornais por exemplar, dirigiu comissões locais e seções de sindicatos importantes entre ferroviários, bancários e professores, liderou movimentos em importantes fábricas, organizou gigantes atos públicos na Praça de Maio e obteve 400 mil votos nas eleições de 1989 e eleições de gabinetes nacionais e regionais de deputados.

Ocorre que a partir de retrocessos nas lutas de classes na Argentina, bem como da queda do Leste em 1989, as respostas políticas equivocadas e impressionistas cederam lugar às rupturas sucessivas, iniciadas pelo grupo que formou o PTS, em 1988, seguidas pela divisão da fração do então Deputado Luiz Zamora, formando o MST, em 1991, e depois mais de uma dúzia de rupturas. Hoje, o Novo MAS não é nem uma sombra do que foi o Velho MAS. Desde então, as quase duas dezenas de grupos, partidos e frações do campo trotskista desenvolveram uma dinâmica fratricida e autoproclamatória que foram reforçadas pelos dois partidos de maior representação, o PO e o PTS. Tanto é assim que, diante da desmoralização e derrota eleitoral do Governo Menem em 1999, quem capitalizou a crise do neoliberalismo foi o velho partido burguês de Fernando de La Rua, que viria a governar somente por 2 anos, devido às gigantescas manifestações, em dezembro de 2001, que também não foram sequer influenciadas pelos partidos da esquerda revolucionária e depois capitalizados pelos governos Kirchner.

As lutas de classes, a crescente crise social e também as divisões do velho peronismo parece que estão empurrando os partidos a buscarem a unidade para criarem um campo alternativo aos bandos burgueses que se revezam no poder, mesmo diante de graves crises econômicas e sociais que vem atingindo o país, desde o final dos anos 80, fazendo decair de forma astronômica o nível de vida da maioria da população da nação que já foi considerada a mais desenvolvida da América Latina.

Após mais de 20 anos de fragmentações e autoproclamação, em 2011, formou-se a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores-FIT, com o Partido Obrero, Partido dos Trabalhadores pelo Socialismo-PTS e Esquerda Socialista[1]. Desde então, a FIT vem aglutinando o voto e o apoio dos principais segmentos do ativismo operário, juvenil e intelectual que vem se enfrentando com os governos Kirchner, para além da influência dos 3 partidos. E um dos fatores mais interessantes é que, além de aglutinar muito mais influência do que a soma dos militantes e do espectro de influência dos três partidos considerados isoladamente, a FIT não parece ter cedido aos apelos para uma adaptação programática e pelo rebaixamento de suas reivindicações. O programa comum e a visão de futuro estabelecida se inserem em um horizonte para além do “social-liberalismo” argentino e também aponta para a necessidade de uma outra Argentina, organizada e gerida pelos próprios trabalhadores e oprimidos em geral.

Neste mês de outubro de 2013, a FIT alcançou quase 1,2 milhões de votos, o que para o Brasil seria cerca de 6 milhões de votos, elegendo 3 deputados nacionais [podendo chegar a 4], além da eleição de deputados provinciais em 7 províncias, apesar das fraudes denunciadas. Destaque-se que nas Províncias de Mendonza, Salta e Santa Cruz as votações chegaram a 19%, 14% e 11%. E na Província de Buenos Aires, a 5%.

Parece que o sentimento da busca pela unidade das organizações de esquerda e do ativismo social, tanto lá como cá deixam um recado fundamental para as esquerdas socialistas brasileiras: DEIXEM A LUTA FRATRICIDA DE LADO e DISPUTEM O MOVIMENTO COM UNIDADE! A legítima disputa pela hegemonia não vai se forjar se não for criado um campo de movimento e consciência anticapitalistas para se contrapor a mais uma falsa tripolarização que se avizinha para as eleições de 2014. Socialistas do Brasil, uni-vos!




[1] Antes deste ano, houve outra frente, apenas entre o Novo Mas, o PTS e Esquerda Socialista.