segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Sobre o método de luta Black Bloc

03 novembro 2013
Por: René Cortez. É trabalhador e ativista social.
 
Ensaio
Sobre o método de luta Black Bloc

No início da década de 1800 surgiu na Inglaterra um “movimento” chamado de “quebradores de máquinas”. Esse movimento tinha como objetivo a denuncia das péssimas condições de trabalho nas fábricas, com longas jornadas de trabalho e baixíssimos salários. Outro elemento de denuncia desse movimento era a mecanização do trabalho que vinha em larga escala substituindo a mão de obra humana e causando um grande desemprego.
Este movimento também ficou conhecido na historia como luddista, um termo que vinha de Ned Ludd, operário britânico que no século anterior havia destruído uma máquina de tricotar após ser repreendido pelo patrão. Não se sabe se Ned Ludd existiu realmente. Mesmo assim, o levante dos operários britânicos contra as maquinas recebeu seu nome.

Em primeiro lugar, é importante respeitar as devidas proporções de espaço e tempo. Não é meu objetivo fazer uma comparação linear entre os adeptos do “método” Black Bloc e o movimento luddista do século XIX. O movimento luddista foi um importante levante operário contra os patrões dentro do então recente modelo fabril que ganhava corpo com a revolução industrial. Ao contrario do que pode parecer, o luddismo foi um movimento muito bem organizado que aglutinou milhares de operários ingleses.

Inicio este texto fazendo referencia ao movimento luddista porque, apesar de tudo, foi um importante exemplo na historia das lutas de classes de muita radicalidade na ação e pouca eficiência política na estratégia. Definir os objetivos e traçar meios para alcançar-los é um dos grandes desafios para aqueles que buscam superar a sociedade capitalista. Portanto, considero de fundamental importância fazer esse debate com os adeptos do método Black Bloc.

Antes de entrar no tema propriamente dito dos Black Bloc é preciso fazer um parêntese sobre o que considero como método de autodefesa das massas contra as agressões policiais. Nesse sentido, penso que a autodefesa das massas surgiu da necessidade de defender o movimento e as organizações dos explorados, excluídos e de toda classe que vive do trabalho, das ações repressivas do Estado. Isso significa dizer que é tarefa da vanguarda revolucionaria criar destacamentos organizados de combates para se defender e reagir frente a uma ação truculenta da polícia militar.

Para podermos ir adiante neste texto é preciso antes fazer uma breve retificação evitando deste modo interpretações diferentes do que estou defendendo. Não considero as ações radicalizadas dos jovens Black Blocs como provocadoras, nem que os Black Blocs são os responsáveis pela repressão do governo. A polícia reprime o movimento dos explorados por que esta é a natureza e a razão da existência da polícia: reprimir os de baixo.

Sobre a forma prática de se defender das ações da polícia, temos vários meios, como a construção de barricadas para impedir ou atrasar o avanço das forças policiais, ou coquetéis molotov, pedras, estilingues, fogos de artifícios, etc. Tudo isso são formas legítimas e válidas para se defender de uma violeta ação repressiva da polícia e do batalhão de choque sobre o movimento. Cobrir o rosto, com máscaras, camisas, lenços e etc também não é reprovável. Tudo isso são métodos de ação de rua que o movimento dos explorados e oprimidos tem a seu dispor quando estão em luta.

Em diversos momentos da historia das lutas de classes mundial observamos a utilização desses métodos. A partir dos anos 1990, a esquerda ou as esquerdas brasileiras acostumaram-se com manifestações de ruas pré-estabelecias, ou seja, com hora de começo, meio e fim e com uma comissão pré-determinada em reuniões superestruturais para negociar com algum secretario de governo de alguma autarquia do estado. Enfim, tudo fora deste script é considerado como “errado”. Este é o momento da esquerda socialista resgatar, defender e aplicar esse tipo de ação de rua, esquecido há muito tempo nos anos 1978 nas greves do ABCD.

Isso não quer dizer que devemos transformar isso como um fim em si mesmo ou aplicar essas ações sem antes avaliar a correlação de forças. Quando me refiro à correlação de forças, estou tratando de uma confrontação de forças em um dado enfrentamento real. Não apenas levando em consideração os contingentes numéricos de pessoas ou de meios técnicos, mas também dos meios de alcançar os objetivos, tantos imediatos quanto futuros. É fundamental ter uma tarefa política concreta diante dos desafios concretos.

Nesse sentido, acredito que os adeptos do método de luta Black Bloc se equivocam e cometem o mesmo erro tático dos luddistas. Os objetivos acabam se tornando imediatistas e a radicalização das ações como quebrar bancos ou ônibus torna-se um fim em si mesmo. A questão não é sobre qual setor social que está na rua tem mais ou menos disposição para quebrar ônibus, banco, lojas ou lanchonetes imperialistas. O debate é político-estratégico. Na Inglaterra do século XIX, o movimento luddista quebrou centenas de máquinas em dezenas cidades britânicas e de certa forma os luddistas foram importantes. Mas já no ano de 1830, as ações luddistas davam sinais de desgaste e acabaram sendo substituídas em seguida pelos sindicatos de trabalhadores.

Por outro lado, é um erro a caracterização de um setor minoritário da esquerda que trata os jovens adeptos do método de ação Black Bloc como inimigos. Numa guerra, saber quem são nossos inimigos e aliados é muito importante e pode ser decisivo. Os adeptos do Black Bloc e a esquerda socialista são aliados e estamos no mesmo lado da trincheira. A polêmica precisa ser feita no plano político. Hostilizar os partidos da esquerda socialista ou pedir pelo fim dos Black Blocs não constrói o debate nem tampouco a unidade de um pólo anticapitalista. Divergir sobre a tática Black Bloc ou polemizar sobre a ausência de um programa político conseqüente para superar o capitalismo em nada significa condenar ou criminalizar os Black Blocs.

Por fim, penso que o principal objetivo que jamais podemos perder de vista é a superação do capitalismo. O passe livre e a desmilitarização da polícia são lutas importantes e para serem alcançadas, precisamos do máximo de unidade entre os vários setores sociais da classe que vive do trabalho e de seus aliados. Mas essas lutas não são a meta final dos socialistas. Parece-me que aos adeptos do método Black Bloc falta esse elemento estratégico da luta.

Precisamos refletir. Até que ponto o método de quebrar os bancos, concessionárias de carros (e um longo etc) ajuda a massificar as ruas? Esses são de fatos os meios mais adequados? Numa guerra é normal mudar de tática diante de uma nova disposição ou situação do inimigo. Nas lutas de classes, em certa medida, podemos dizer que também é assim. Ainda que nosso objetivo final continue o mesmo, ou seja, a superação da sociedade capitalista, ao longo dessa batalha os trabalhadores e seus aliados podem variar de táticas. O que determina essas mudanças são as circunstâncias concretas da realidade.

É um grave erro colocar nossos desejos e “vontades pessoais” acima da vontade da maioria, desconsiderando o estado de ânimo das massas populares e da ampla vanguarda. A tarefa histórica do povo pobre, explorado, oprimido e trabalhador é muito superior à de jogar uma pedra numa fachada de um banco. Nossa batalha é traçar os caminhos para atingir os objetivos finais de nossa classe. E mesmo que ainda sejamos incapazes de descobrir o caminho correto, jamais podemos perder o norte de nossa luta final.