sábado, 6 de janeiro de 2018

O pobre de direita é um figurante de burguês

Ensaio
Por José Menezes Gomes, Doutor pela USP e professor do curso de Economia de Santana/AL e do Mestrado em Serviço Social da UFAL.

O professor José Menezes Gomes

O pobre de direita se acha liberal mesmo não tendo capital e propriedade. Ele é contra os direitos trabalhistas pois espera um dia ter capital e propriedade para ser um explorador da força de trabalho dos outros. Ele é contra os direitos sociais pois acha que isto reduzirá os seus lucros futuros quando ele for capitalista e puder explorar os trabalhadores, sendo que ele é trabalhador, mas não se reconhece como tal. Ele é contra o Estado, pois acha que quando ele tiver capital e propriedades não vai querer que o Estado estabeleça limites ao seu desejo de ficar rico explorando os trabalhadores.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

'Na natureza selvagem' e a descoberta do humano

Ensaio
Por Héricka Wellen, que tem formação em Letras e Educação e é pesquisadora.



Na natureza selvagem (Into the Wild, 2007) conta a história real de Christopher Johnson McCandless – jovem de família abastada estadunidense que deixa a família e o conforto material para buscar, fora da civilização, sua “emancipação espiritual” no ano de 1990. Roteirizado e dirigido por Sean Penn, o filme é uma adaptação do livro homônimo de Jon Krakauer, escrito em 1998, com base no diário de Chris e em entrevistas com sua família e com os amigos que ele encontrou na sua jornada.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Miguel e Pablo, 50 anos de Brasil

Ensaio
Por Ana da Hora, ativista social.

Padre Reginaldo Veloso e Coral 'Vozes da Resistência'

Dia 11 de dezembro realizou-se na Igreja das Fronteiras uma celebração de Ação de Graças pelos 50 anos no Brasil dos missionários Miguel Espar e Pablo Garulo coordenada pelo antigo padre da paróquia de Casa Amarela Reginaldo Veloso e pelo padre Fábio Potiguar da paróquia do Parque dos Guararapes. O evento foi a celebração de uma trajetória de 50 anos de militância pelos direitos humanos e a justiça social para eles que se engajaram a partir do momento em que chegaram ao Brasil em 1967.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A revolução russa e seus desdobramentos

Ensaio
Por Jefferson Gustavo Lopes, mestrando em História pela UFCG.

Operários russos em 1920

Lenin tinha clareza que a Rússia não estava pronta para uma revolução socialista uma vez que as forças produtivas não estavam desenvolvidas para transformar o país dos sovietes num país socializado e sem propriedade privada dos meios de produção. Todavia, insistiu para que a tentativa de capitalismo que o governo provisório queria desenvolver fosse abortada (como foi com a revolução de outubro), para, assim, desencadear a revolução na Europa. O movimento operário mundial estava naquele momento, sobretudo na conjuntura da primeira guerra mundial, estava em plena ebulição e precisaria de um estopim que incendiasse o movimento internacional. Isso aconteceu com a tomada de poder pelos bolcheviques na Rússia. Porém, as esperanças de Lenin, no que concernia à revolução na Europa, estava de fato na Alemanha. O líder do partido bolchevique em uma carta expressou:

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Impressão poética

Conto
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.



Dois belos rapazes se conheceram quando estagiavam numa empresa multinacional. Eles tinham a mesma idade. Foram demitidos por contenção de despesas e nunca mais voltaram a se encontrar. Porém, trocavam e-mails constantemente, falavam de questões profissionais. Um continuou na carreira jurídica, outro se tornou poeta. Os diferentes rumos profissionais fizeram cessar a amizade virtual pelo seguinte motivo: João começou a enviar seus poemas para Carlos e nunca recebeu uma resposta do antigo amigo de trabalho. Todo poema que escrevia, enviava para o amigo, que nunca o respondia. Carlos ficava tão emocionado que não sabia o que dizer. Mas imprimia todos os versos e seu apartamento ficou abarrotado de poesia.

domingo, 31 de dezembro de 2017

A questão do Estado e sua difícil superação

Artigo [*].
Por Mauricio Gonçalves, doutor em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara/SP.

István Mészáros (1930-2017)

A maioria das interpretações marxistas sobre a metáfora entre “a base e a superestrutura” – tiradas do Prefácio de 1859 da Contribuição à crítica da economia política, de Marx –, localizam o Estado na superestrutura política e, portanto, como um elemento determinado e dependente (“em última instância”) da base socioeconômica da sociedade, mesmo que agindo sobre ela e com autonomia relativa. Sobre esse ponto Mészáros elabora uma teorização original para a compreensão do Estado moderno – intrinsecamente ligada à sua crucial noção de sistema sociometabólico do capital –: ele é a estrutura de comando político do capital e parte da base material do sistema, possuindo, ele mesmo, sua própria “superestrutura legal e política”.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

'Machuca' e a questão da igualdade na diferença

Ensaio
Por Héricka Wellen, que tem formação em Letras e Educação e é pesquisadora.

A película de Andrés Wood

Desde quando um branco é amigo de um índio?”, pergunta Silvana no seu característico tom desafiador. “Claro que pode ser. É possível”, responde Gonzalo. A conversa entre Silvana e Gonzalo sobre a amizade do cavaleiro solitário Zorro e seu companheiro Tonto pode ser vista como uma tentativa de compreender como é possível a amizade deles próprios: Silvana, Gonzalo Infante e Pedro Machuca.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Cinco pitacos sobre 'Vai Malandra'

Ensaio
Por Leandro Oliveira, músico e cientista social.

Acesse o clipe aqui: Vai Malandra



1. Nenhuma garota dos clipes de funk com milhões de views se veste como Anitta. Os clipes de funk são ambientados em praias paradisíacas com lanchas, mansões com piscina, motos e carros de luxo, garotas de biquínis sóbrios e shorts jeans. Anitta rebola em um short vermelho cavado e enrolado na lateral sobre outro short de oncinha, blusinha rosa, correntinha de ouro na cintura, muitos colares e bota de bandeira do Brasil acima do joelho. Piscina na caçamba do caminhão, biquíni de fita e laje no Vidigal. Mas os clipes de funk são visualmente pobres, repetem exaustivamente os mesmos planos e enquadramentos, tomadas aleatórias, narrativas frouxamente construídas. Vai Malandra é puro cálculo e eficiência. A estratégia estética em Vai Malandra tem a ver com um imaginário sobre periferia, um exagero proposital de características visuais que remetem a uma 'identidade cultural'. O local para o olhar global como em Kali Uchis, M.I.A., Awkwafina ou mesmo Rihanna e Beyoncé. O videoclipe combina meticulosamente o imaginário cinematográfico do Cinema de Favela e a estética pop de uma periferia global. O resultado é uma filmagem rica de fetiches de pobreza em contraste com filmagens pobres de fetiches de riqueza. Não existe fora no jogo do poder.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

As antinomias da transição socialista na URSS: de Stalin a Gorbachev

Artigo [*].
Por Mauricio Gonçalves, doutor em Ciências Sociais pela Unesp Araraquara/SP.

Joseph Stalin (1878-1953)

Não é possível continuar pari passu a trajetória histórica da URSS, nem é este o objetivo aqui. As vicissitudes da União Soviética levaram-na a realizar uma (re)avaliação séria, com suas consequentes lutas políticas internas correlatas, sobre a Nova Política EconômicaNEP (que intentara reanimar a economia após o desastre das guerras mundial e civil, mas, ao mesmo tempo, fazia brotar grupos sociais proprietários que se alimentavam dos mecanismos de mercado incentivados à época – kulaks, ou camponeses abastados, e nep-men, ou “homens-nep”) [1]. Essa (re)avaliação, os dilemas e as crises da economia e da sociedade pós-revolucionária de fins da década de 1920 a levaram para o caminho da industrialização acelerada nos centros urbanos, da coletivização forçada nos campos e para o aprofundamento do “absolutismo burocrático” (Victor Serge), dos quais os “processos de Moscou” são um momento orgânico necessário, através da consolidação do stalinismo. Estruturava-se então a “sociedade pós-capitalista do capital”, com a manutenção e intensificação da alienação política, social e econômica dos trabalhadores, mas que não eliminava as contradições socioeconômicas potencialmente restauradoras em direção ao capitalismo. Foi no interior dessas contradições, e sem jamais atacá-las de um modo substantivo ou mesmo minimamente democrático, que Stalin tentou manobrar. Tais manobras buscaram conciliar um modo político autocrático e policial de extração do trabalho excedente com a introdução de uma contabilidade e lucratividade à moda do mercado capitalista.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

A miséria da filosofia pernambucana

Ensaio
Por Gutemberg Miranda, professor de Filosofia da UFAL.

Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFPE

A crise política que vivemos atualmente exige reflexão e criticidade. Esperamos isso principalmente do senso comum, que a doxa e a linguagem cotidiana não reproduzam meros preconceitos, mas signifiquem algo além de opiniões e diálogos irrefletidos. Não apenas na tradição filosófica pernambucana, mas em nossa própria história política, existe um compromisso com causas democráticas e libertárias construído por diversas gerações e que não podemos perder de vista. É assombroso que o Departamento de Filosofia da UFPE tenha se calado diante de fatos e posturas protagonizados no interior do CFCH e que não correspondem com o papel de vanguarda e de liderança que o pensar filosófico e as ciências humanas sempre representaram para Pernambuco e se espraiaram pelo Brasil com ressonância pelo mundo.