quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Contra o pessimismo (3)

Ensaio
Por Betto della Santa, pós-doutorando em Teoria Social pela UFF.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)
Acesse a parte 2 aqui: Contra o pessimismo (2)

O crítico inglês Perry Anderson

III
Outro marxismo?
Ora, poderíamos dizer que esta tradição intelectual – para além de alguns epígonos e/ou de casos isolados – encerrou seu ciclo histórico com a onda internacional de revoltas e a crise estrutural do capital que sucedeu o fim dos anos 60 e o início dos 70 no século XX? Sempre soa algo definitivo demais colocar uma pedra sobre qualquer grama. O mundo ‘vasto e terrível’ sempre dá voltas. Cremos que parte importante deste tipo de marxismo encontra-se viva. O marxismo das formas de Frederic Jameson, nos Estados Unidos, ou o ensaísmo crítico de Paulo Arantes, no Brasil, dão mostras de uma produção instigante. Mas nos parece que o caso mais significativo, naquilo em que aprofunda e também no que desprega da tradição pós-clássica, é mesmo o de Perry Anderson. De um otimismo político acachapante nas urgentes teses, de 1974, a pessimismo intelectual tão aterrador quanto cortante no editorial manifesto, de 2001, vai lá uma distância de muitos alqueires. O paladino dos marxistas soixante-huitards – sessenta-e-oitistas – foi o mais longe deles:

domingo, 29 de julho de 2018

Contra o pessimismo (2)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)

Angelus Novus, de Paul Klee

I
O novo tempo do mundo?
O espectro da autodeterminação – um novíssimo modo de fazer história – só surgiu nos últimos duzentos anos. A única concepção de história disponível naquele então era uma 'Heilsgeschichte' ou, em miúdos, algo como a História da Salvação'Sagrada' – e todo um outro tempo. Walter Benjamin tematiza, ao final de suas Teses sobre o Conceito de História, uma possibilidade efetiva para a instauração de um novo «Tempo-de-Agora». O materialismo histórico e a história sagrada se voltam contra a ideia de progressivismo. Acreditamos que este espectro ronda o globo e é um tema que vale a pena rever adiante.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Contra o pessimismo (1)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Purificação do Templo (1875), de Carl H. Bloch

O pessimismo e o otimismo fazem parte do senso comum. São estados de espírito que, como pólos opostos, não deixam de ser vulgares, e até algo banais. Quando associados a visões de mundo messiânicas, de tipo milenarista, alcançam o status de sagrado e – com retórica inflamada – podem subir aos céus ou descer aos infernos. Os exemplos são muitos. Abundam. Mas dado o contexto efetivo em que nos toca viver vale a pena ver, mais de perto, os mais próximos. Qual diria Brecht, estranhar aquilo que nos é familiar. Vale a pena acompanhar de perto o argumento de Terry Eagleton (2015) sobre a questão.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O choro de Neymar

Ensaio
Por Mauricio Gonçalves, que é contrário às várias quedas de Neymar e favorável à queda de Michel Temer pelas massas indignadas.

Neymar chora após vitória contra Costa Rica na Copa da Rússia em 2018

Dentro de campo o 2 a 0 foi merecido. Mas, aguentar Galvão Bueno é um castigo. O que não dizem: há sérios problemas na vitória de hoje. A seleção parece não ter equilíbrio emocional. Neymar mais prejudica do que ajuda nisso. Tenta se comportar da melhor forma no interior da posição que a ele foi atribuída: o rei, o herói, o "cara" do time. Bota a bola debaixo do braço e tenta resolver tudo sem a presença dos demais. É ridículo, mas a nossa civilização recria incessantemente o mito do indivíduo extraordinário, quase sobrenatural. Mito que ainda funciona na maioria das vezes, já que talvez expresse o desejo discreto de se diferenciar, de ser notado, de ser reconhecido e valorizado em uma sociedade de crescente indiferença e cinismo. E esse imperialismo do narcisismo é usado tanto para as vendas como para a dominação política. O choro de Neymar ao final do jogo pode ser interpretado como um pedido de ajuda. E a maior ajuda que se pode dar a ele e ao time de conjunto é retirar dele aquilo em que ele foi convencido a acreditar: de que é o sol e o centro de gravidade do time. Se Neymar não for destronado, e a rede Globo só faz colaborar com o seu reinado, não triunfaremos. Podemos e devemos "separar" a vida futebolística da vida nacional, ainda que a Globo, como "partido político" que é, tente usar a seleção para anestesiar o povo, inflar o seu ego e construir a narrativa de grande nação. Neymar tem um grande papel nessa construção. Por isso vem sendo tratado como um menino mimado pela Globo. Tirar a coroa de Neymar, e consequentemente daqueles que o coroaram, poderá ter importância pedagógica e política para além do futebol.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Glauber, nosso futuro do pretérito

Ensaio
Por Alberto Luis, doutorando em Sociologia pelo IESP/UERJ.



A revista piauí de maio de 2017 trouxe uma instigante matéria assinada por Eduardo Escorel em razão do aniversário do lançamento de Terra em transe, de Glauber Rocha, em maio de 1967 (O massacre de maio, piauí nº 128). De um lugar privilegiado, o montador da película narra com miudezas os bastidores da recepção do filme nos meios intelectuais e por cabeças do Estado de exceção à época. Com acesso às gravações do debate de lançamento no Museu da Imagem e Som (MIS) do Rio de Janeiro, ao qual compareceram conhecidas silhuetas da crítica e militância – o próprio Escorel, Fernando Gabeira, Luiz Carlos Barreto, dentre outros – o autor tem a oportunidade de revisitar o contexto e reavaliar o legado de Terra em transe cinquenta anos depois. Passados os anos, o filme parece assumir uma dimensão histórico-sociológica que reforça a ideia do cinema como via de conhecimento da história e da realidade nacional.

domingo, 17 de junho de 2018

Greve dos caminhoneiros: todos juntos em defesa da ordem!

Ensaio
Coletivo Transição, agrupamento antissistêmico de ativistas.



Que lições tiramos desta verdadeira crise econômica e institucional que o país viveu por 10 dias? A maioria da sociedade foi surpreendida pela greve dos caminhoneiros. 2 milhões deles, sendo 600 mil autônomos: categoria importantíssima para o país, já que quase todo o transporte é feito sobre rodas, pauperizada e sujeita a terríveis jornadas de trabalho e perigos. Para o governo não deveria haver surpresas: ignorou por meses as reivindicações da categoria, desenvolveu a politica de American First (EUA em primeiro lugar) da Petrobras, superfaturou os preços dos combustíveis, diminuiu sua capacidade de refino interno, exportou e vem exportando óleo cru e importando gasolina de acordo com o preço do dólar, gerou desemprego e, com isso, onerou o custo dos transportes.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

O desterro como vocação: a prosa ficcional de Philip Roth

Ensaio
Por Renato K. Silva, que atualmente é doutorando em Ciências Sociais pela UFRN e foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, em Los Angeles.

O escritor Philip Roth

***

Se há um traço indelével na prosa ficcional de Philip Roth (1933-2018) é a marca do desterro. As personagens de Roth tem estampadas em suas trajetórias um sentimento de inquietação no tocante ao não pertencimento físico e moral às circunstâncias que estão inseridas. E esse mal-estar possui dupla face: identitário e sexual.

domingo, 3 de junho de 2018

Ciro Gomes, o príncipe

Ensaio
Por Thiago Arrais, que mora no Ceará.



Ciro Gomes é um “animal político”, menor apenas do que Lula no cenário brasileiro. Não se trata, somente, de fazer da política carreira e ofício (há muito mais gente neste bonde), mas de saber transitar, servindo-se disso, pelas múltiplas camadas do espectro político do país. Num certo sentido, Ciro é ainda mais desenvolto que Lula nesse malabarismo das contradições: apenas num recorte recente, aquele que já foi o homem forte de Tasso Jereissati e FHC, sentou-se ao lado de Luciana Genro, elogiou Boulos, foi elogiado por Manuela D'Ávila, jantou com Haddad, comportou-se como um leal aliado de Lula e Dilma. O homem que diz querer banir o fisiologismo do golpista PMDB tem, como seu possível vice, o atual vice-presidente da Fiesp, que liderou o golpe à Dilma e ao PT e é quadro do PP (o mais corrupto partido político do país de acordo com o TCU). O candidato que já conta com o voto de Caetano Veloso e dá palestra para o público ambientalista do Teatro Oficina, é o desenvolvimentista de estreitas relações com grandes empreiteiros da construção civil e do agronegócio, tendo sido há até pouco tempo alto executivo da CSN, liderando a malfadada e superinflacionada construção da Transnordestina.

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Expectativas em baixa

Ensaio
Por Maurilio Botelho, que é Professor de Geografia Urbana na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ/Campus Seropedica-RJ.



As propostas e discussões sobre a paralisia dos transportes revelam bem o quanto estamos presos ao imediato: a única reflexão mais alargada do ponto de vista temporal é a que aponta a dependência nacional ao transporte rodoviário. Mas mesmo quem trata disso tem de enfrentar a resposta mal humorada de que pensar no longo prazo não resolve o problema de agora. Nosso horizonte histórico é repartido sempre entre o momento atual e um futuro indeterminado. A busca “séria” e “realista” por medidas imediatas a serem adotadas indica o beahaviorismo de uma sociedade em crise: as medidas de curto prazo são as respostas salivares oferecidas a um horizonte social cada vez espremido.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

A greve dos caminhoneiros e a esquerda revolucionária

Ensaio [*].
Por Rafael Massuia, professor de Sociologia da Universidade do Centro-Oeste (Unicentro), campus Irati-PR.



Se a greve dos caminhoneiros, que completa hoje 6 dias, e não dá ainda indícios claros do seu encerramento (e, muito menos, da “normalização”, que, segundo previsão de alguns analistas, poderá levar 2 semanas) não alcançasse nenhuma conquista efetiva, mesmo assim, teria sido de grande valia pelo inestimável aprendizado que forneceu para a classe trabalhadora e as esquerdas de forma geral.