domingo, 14 de outubro de 2018

Supervalorização das pautas identitárias

Ensaio
Por Renato Correia, militante social.

Operários, de Tarsila do Amaral

Existe uma versão da música “A vida é desafio,” do grupo Racionais Mc's, em que Rap Afro-X tece alguns comentários: “Sempre fui sonhador, é isso que me mantém vivo. Quando pivete, meu sonho era ser jogador de futebol, vai vendo. Mas o sistema limita nossa vida de tal forma que tive que fazer minha escolha, sonhar ou sobreviver. Os anos se passaram e eu fui me esquivando do ciclo vicioso. Porém, o capitalismo me obrigou a ser bem-sucedido. Acredito que o sonho de todo pobre é ser rico”.

domingo, 30 de setembro de 2018

Vida longa à primavera das mulheres!

Ensaio
Por Coletivo Nova Práxis/Transição, de Recife.

ele é o olho roxo de quem não caiu da escada
ele é a violência escondida na piada
ele é aquele aperto nojento na condução
ele é a casa-grande rindo da escravidão

ele é o país na contramão da caminhada
ele é o patrão violando a empregada
ele é o nosso salário 1/3 mais baixo
a política do ódio, covardia, esculacho (2x)

a barbárie de farda berrando no palanque
a hipocrisia mais truculenta
ele é a mão suja de sangue
e se diz ungida de água benta

ele é o atraso que país nenhum merece ter
e nós somos as mulheres que não vão deixar ele vencer
ele é o atraso que país nenhum merece ter
e nós somos as mulheres que não vão deixar ele vencer”
(Ele não, de Marina Iris).

#elenão em Recife

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Retórica, jogos de linguagem e sofística

Ensaio
Por Michel Zaidan Filho, professor titular de História da UFPE.

Representação pictórica dos sofistas

A ciência moderna da Retórica foi profundamente influenciada pela suspeita metódica do filósofo Friedrich Nietzsche em relação ao conhecimento humano. Num curto ensaio intitulado A verdade e a mentira no sentido extramoral, Nietzsche lança as bases do neonominalismo na ciência, na filosofia e na religião. Segundo ele, o pensamento é uma patologia humana, uma espécie de racionalização do complexo dos homens em relação às demais criaturas do universo. Pensa-se para justificar a pobreza cósmica e filosófica da humanidade. Sobretudo, a sua solidão metafísica. O pensamento seria uma espécie de doença responsável pelo sentimento de angústia e desamparo humanos diante da grandeza do mundo.

domingo, 16 de setembro de 2018

O golpe de Pinochet contra Allende*

Ensaio
Por Osvaldo Coggiola, professor titular de História da USP.

*Título completo: O golpe de Pinochet contra Allende: uma virada política internacional.

Salvador Allende

A 11 de setembro de 1973, um acontecimento político sacudiu América Latina e o mundo todo: as Forças Armadas chilenas, encabeçadas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram mediante a força o governo socialista de Salvador Allende no Chile, provocando a morte de seu presidente. O golpe se inscreveu dentro de uma série que abalou América do Sul na década de 1970: 1971, Bolívia; 1973, Uruguai e Chile; 1975, Peru; 1976, Argentina (no Paraguai e no Brasil já existiam regimes militares). O golpe chileno deflagrou uma violenta repressão e inaugurou uma longa era marcada pelas prisões arbitrárias, desaparecimento forçado de pessoas e torturas. Em matéria econômica, o governo de Pinochet foi diretamente assessorado pelos “Chicago Boys”, grupo universitário inspirado pelo economista liberal Milton Friedman. O governo militar procedeu à privatização de quase todas as empresas estatais, em especial aquelas nacionalizadas no período de Allende (1970-1973), no que foi considerado um “laboratório” das políticas neoliberais postas em prática internacionalmente a partir do final da década. Chile, economia de livre repressão foi o significativo título de um livro do economista holandês André Gunder Frank.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A segunda morte de Luzia

Ensaio
Por Ana Cristina Oliveira, que é professora de História, graduanda e mestre em Serviço Social pela UFPE.



Luzia in a sea of ashes*

Estou literalmente de luto, esvaziada, queimada, em cinzas!

Infelizmente como tantos outros brasileiros não tive a oportunidade de visitar fisicamente o Museu Nacional. Mas, como professora e estudante de História, que defende a garantia de nossa memória histórica e resgate de nossa diversidade cultural, sinto-me profundamente indignada. Indignada! In-dig-na-da! Vinte milhões de vezes indignada!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Considerações sobre a crise recente e o machismo sobre Dilma

Ensaio
Por Leandro Barbosa, mestre e doutorando em Educação pela UFPE.

A ex-presidente Dilma Rousseff

É muito comum observar associações da crise por que passa o país nos últimos anos à incapacidade (individual) de governar de Dilma Rousseff. E essa associação existe de Ciro a Meirelles. É errônea.

domingo, 19 de agosto de 2018

Contra o pessimismo (4)

Ensaio
Por Betto della Santa, pós-doutorando em Teoria Social pela UFF.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)
Acesse a parte 2 aqui: Contra o pessimismo (2)
Acesse a parte 3 aqui: Contra o pessimismo (3)

Raymond Williams (1921-1988)

V
Do desespero convincente à esperança viável
É possível encontrar dos mais baixos vales, depressão pessimista, aos mais altos cumes, de euforia otimista, no interior da tradição marxista. O exercício de topologia intelectual não deixa de ser algo tal qual sismógrafo político a auscultar o pulso das massas de perto. Salvo ledo engano não poderia haver mais catastrófica preleção sobre o futuro humano do que o alerta de Friedrich Engels para o fato mesmo de que o sistema solar vai ter fim. A absoluta convicção na aniquilação do Planeta e todo o gênero humano sobre a face da Terra, afinal de contas, não é propriamente a mensagem dum ensolarado café da manhã. O destino último para o qual sucessivos militantes – de Blanqui a Lyotard – imaginaram fugas intergalácticas, vôos interplanetários e repovoamentos épicos, dignos de melhores constructos da indústria cinematográfica de Hollywood em seus delírios mais fantásticos (se é que Los Angeles ainda é capaz de produzir algo digno de atenção), não encontrou no mais bem-disposto, bem-alimentado dos fundadores do materialismo histórico solução:

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Contra o pessimismo (3)

Ensaio
Por Betto della Santa, pós-doutorando em Teoria Social pela UFF.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)
Acesse a parte 2 aqui: Contra o pessimismo (2)

O crítico inglês Perry Anderson

III
Outro marxismo?
Ora, poderíamos dizer que esta tradição intelectual – para além de alguns epígonos e/ou de casos isolados – encerrou seu ciclo histórico com a onda internacional de revoltas e a crise estrutural do capital que sucedeu o fim dos anos 60 e o início dos 70 no século XX? Sempre soa algo definitivo demais colocar uma pedra sobre qualquer grama. O mundo ‘vasto e terrível’ sempre dá voltas. Cremos que parte importante deste tipo de marxismo encontra-se viva. O marxismo das formas de Frederic Jameson, nos Estados Unidos, ou o ensaísmo crítico de Paulo Arantes, no Brasil, dão mostras de uma produção instigante. Mas nos parece que o caso mais significativo, naquilo em que aprofunda e também no que desprega da tradição pós-clássica, é mesmo o de Perry Anderson. De um otimismo político acachapante nas urgentes teses, de 1974, a pessimismo intelectual tão aterrador quanto cortante no editorial manifesto, de 2001, vai lá uma distância de muitos alqueires. O paladino dos marxistas soixante-huitards – sessenta-e-oitistas – foi o mais longe deles:

domingo, 29 de julho de 2018

Contra o pessimismo (2)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Acesse a parte 1 aqui: Contra o pessimismo (1)

Angelus Novus, de Paul Klee

I
O novo tempo do mundo?
O espectro da autodeterminação – um novíssimo modo de fazer história – só surgiu nos últimos duzentos anos. A única concepção de história disponível naquele então era uma 'Heilsgeschichte' ou, em miúdos, algo como a História da Salvação'Sagrada' – e todo um outro tempo. Walter Benjamin tematiza, ao final de suas Teses sobre o Conceito de História, uma possibilidade efetiva para a instauração de um novo «Tempo-de-Agora». O materialismo histórico e a história sagrada se voltam contra a ideia de progressivismo. Acreditamos que este espectro ronda o globo e é um tema que vale a pena rever adiante.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Contra o pessimismo (1)

Ensaio
Por Betto della Santa, militante e educador que segue os ensinamentos do "mestre" – educar como quem milita e militar como quem educa para tornar a esperança viável.

Purificação do Templo (1875), de Carl H. Bloch

O pessimismo e o otimismo fazem parte do senso comum. São estados de espírito que, como pólos opostos, não deixam de ser vulgares, e até algo banais. Quando associados a visões de mundo messiânicas, de tipo milenarista, alcançam o status de sagrado e – com retórica inflamada – podem subir aos céus ou descer aos infernos. Os exemplos são muitos. Abundam. Mas dado o contexto efetivo em que nos toca viver vale a pena ver, mais de perto, os mais próximos. Qual diria Brecht, estranhar aquilo que nos é familiar. Vale a pena acompanhar de perto o argumento de Terry Eagleton (2015) sobre a questão.